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20.8.26

10.8.26 Fotografía: César Barrio




PORT - ESP


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
                 à sua imagem. Este verão concentrado
                 em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
                 internos.

                 Vou morrer assim, arfando
                 entre o mar fotográfico
                 e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
                 o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
                 ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
                 ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
                 Cada noite é um abismo atómico.

                 E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
                 O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
                 contra a flecha. Deus ataca-me
                 na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
                 pelas mãos.


Herberto Helder
Ou o poema contínuo




Dejaré los jardines brillando con sus ojos 
detenidos: he de partir cuando las flores lleguen 
                 a su imagen. Este verano concentrado 
                 en cada espejo. El propio 
movimiento lo entenebrece. Arden los labios 
de los animales. Dejaré las constelaciones panorámicas de estos días 
                  internos. 

                  Voy a morir así, jadeando 
                  entre el mar fotográfico 
                  y cóncavo 
y las paredes con las perlas hundidas. Y la luna desencadena en las grutas 
                  la sangre que se agrava. 

Está lleno de candiles, el verano de donde se parte, 
                  ígneo en ese niño 
contemplado. Abandono estos jardines 
                  feroces, el genio 
que sopló en los estudios excavados. Es el dolor el que me lleva 
a los precipicios de agosto, la mansedumbre 
me trae a las ventanas. Son únicas las colinas de aire 
palpitando cerradas en el espejo. Es la estación de los planetas. 
                  Cada noche es un abismo atómico. 

                  Y la leche se vuelve tierna durante 
los eclipses. Golpean en mí los golpes del cantero 
que talla en el calcio la rosa congénita. 
La carne, la sofocan los astros profundos en los capullos. 
                  El verano es de azulejo. 
Es en nosotros donde se encorva el nervio del arco 
                  contra la flecha. Dios me ataca 
en la candidez. Queda, fría, 
esta red de jardines ante los incendios. Y un niño 
da la vuelta a la noche, completamente encendido 
                  por las manos.


Herberto Helder
O el poema continuo

2.8.26

Henri Michaux
 





(PORT - ESP)



O MAR


O que eu percebo, o que é meu, é o mar indefinido.

Aos vinte e um anos, evadi-me da vida das cidades, aventurei-me, foi marujo. A bordo havia muito que fazer. Fiquei espantado. Pensava que num navio a gente fitava o mar, que infindavelmente fitávamos o mar. 

Os barcos forma depois desaparelhados. Era o desemprego dos marítimos que assim começava.

Voltando as costas àquilo, fui-me embora, não disse nada, tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente em meu redor.

Mas qual mar? Foi isto justamente que eu depois me vi impedido de explicitar.



À ESPERA


Um ser doido,

um ser farol,

um ser mil vezes suprimido,

um ser exilado do fundo do horizonte,

um ser gritando do fundo do horizonte,

um ser magro,

um ser íntegro,

um ser altivo,

um ser que quereria ser,

um ser na batida de duas épocas que se entrechocan,

um ser nos gases venenosos das consciências que sucumben,

um ser como no primeiro dia,

um ser...



UM CERTO FENÓMENO CHAMADO MÚSICA


(...) 

Música, operação do devir, a mais sã operação humana. A música substitui os seres. a mãe, a mulher, a criança, os amigos, naquilo que têm de maravilhoso mas de que só quereríamos amiúde, sem dar por isso, através duma maravilhosa subtracção do que incomoda, guardar apenas isto que os exprime, para os tornar tão inofensivos como as ondas de delícias que dão náuseas. Música, eixo profundo, eixo arcaico que sustém os eixos múltiplos. Eixo, dir-se-ia, anterior à ambivalência.



LEITURA


Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único.

Muito diferente é o quadro: imediato, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias.

Nele não há um trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a LER.



OBSERVAÇÕES


Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo.

Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que tão extraordinário lhe parece no outro.

Pergunto-me que língua gostaria eu de ouvir no meu leito de morte, caso tenha uma cama e algum recolhimento. Mas nem pensar. Há-de-ser, aposto, mais uma hora de falhado.

Sincero? Eu escrevo para que aquilo que era verdade deixe de o ser. Prisão mostrada já não é prisão.

Conheço tão pouco o meu rosto que se me mostrassem um do mesmo género seria incapaz de ver a diferença (a não ser, talvez, desde que comecei a fazer estudos de rostos).

(...) As artes comprazem-se ainda muito nas suas servidões.



LINHAS

Sobre umas linhas traçadas sem objectivo no papel; 

sobre umas páginas de linhas.


Enobrecida por um traço de tinta, uma linha fina, uma linha onde já nada fede

Não para explicar, não para expor, não em terraços, não monumentalmente

Mas antes de maneira como pelo Mundo há anfractuosidades, sinuosidades, antes da maneira como há cães vadios

uma linha, uma linha, mias ou menos uma linha...

Em fragmentos, em primeiros germes, apanhada de súbito, uma linha, uma linha, uma linha... uma legião de linhas

Peixe miúdo da água nova de um sentimento que desponta, fala, se ri, se arrebata ou que às vezes se põe a apunhalar

Fugidas das prisões recebidas como herança, vindas não para definir, mas para indefinir, para passar o ancinho por cima, para voltar a escapar à escola, linhas, aqui e ali, linhas,

Que descem, ziguezagueiam, mergulham para sonhadoramente, para distraidamente, para multiplamente... em desejos que se espreguiçam, que libertam.



Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.

Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do principio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar a teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.



Eu o que vejo é sobretudo o movimento deles. Sou dos que gostam do movimento, do movimento que rompe a inércia, que enreda as linhas, desfaz os alinhamentos, me livra das construções. Do movimento como desobediência, como novo arranjo.

Uma vez mais posso ser espontâneo, totalmente, sem correcções, sem segunda versão, sem ter de voltar atrás, de fazer retoques. Logo à primeira.

O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Anos depois ainda e sempre essa aventura.



Por querer apanhar os insectos, apanhar tornara-se dominante, coisa em mim tão pouco natural (aquisição tardia), apanhar cujo oposto é "recolher-se", não se enriquecer com, manter-se reservado.


Por fim, APANHAR não era senão dinamismo, um apanhar abstracto, a isso se tendia.


Por falta do principal

apanhar desordenadamente, de modo exagerado,


Aturdir-me com isso


Fazer-me insecto para melhor apanhar

com patas de gancho para apanhar melhor

insecto, aracnídeo, miriápode, acarídeo

se preciso for, para apanhar melhor.


Voltar a encontrar a dança original dos seres para além da forma

e dé todo o tecido conjuntivo de que está atafulhada, para além

deste imóvel empacotamento que é a pele dos seres.


A linha não é um resumo de volume ou de superficie,

é um resumo de cem gestos e atitudes e impressões

e emoções.


Voltar a encontrar um todo em simultáneo.

Um resumo dinâmico feito de lanças, não de formas.



Por fim edificadas

por fim à imagem da nossa desmesurada medida

dominando vertiginosamente metrópoles e aldeias

unidos, nós e elas, apesar da sua massa e dureza

como irmãos gémeos colados pela boca

pela raiva, pelos rins, pelo ânus

pela abjecção comum impossível de esquecer

por tudo o que é falhado implacavelmente desde o princípio


pela desgraça de posição

por toda a velha cola reumatismal

pela nova instalação que fere mais

ainda mais deformadora

pela todavia inextinguível tendência para sublimar


catedrais

monstruosamente escoradas ao rosto do céu

nossas catedrais

quando vos veremos nós?



Henri Michaux

O retiro pelo risco. Antologia poética





EL MAR


Lo que percibo, lo que me pertenece, es el mar indefinido.

A los veintiún años huí de la vida de las ciudades, me lancé a la aventura, fui marinero. A bordo había muchísimo trabajo. Me quedé atónito. Yo pensaba que, en un barco, uno contemplaba el mar, que contemplábamos el mar interminablemente.

Los barcos fueron después desarmados. Así comenzaba el desempleo de los hombres del mar.

Di la espalda a todo aquello y me marché sin decir palabra; llevaba el mar dentro de mí, el mar eternamente a mi alrededor.

Pero ¿qué mar? Eso fue precisamente lo que después me vi incapaz de explicar.



A LA ESPERA


Un ser loco,

un ser faro,

un ser mil veces suprimido,

un ser desterrado del fondo del horizonte,

un ser que grita desde el fondo del horizonte,

un ser enjuto,

un ser íntegro,

un ser altivo,

un ser que querría llegar a ser,

un ser en el latido de dos épocas que chocan entre sí,

un ser entre los gases venenosos de las conciencias que sucumben,

un ser como en el primer día,

un ser...



UN CIERTO FENÓMENO LLAMADO MÚSICA


(...)

La música, operación del devenir, la más saludable de las operaciones humanas. La música sustituye a los seres: a la madre, a la mujer, al niño, a los amigos, en aquello que tienen de maravilloso, pero de quienes tan a menudo querríamos, sin siquiera advertirlo, mediante una maravillosa sustracción de todo cuanto incomoda, conservar únicamente aquello que los expresa, para volverlos tan inofensivos como las oleadas de deleite que llegan a provocar náusea. La música, eje profundo, eje arcaico que sostiene los ejes múltiples. Un eje, se diría, anterior a la ambivalencia.



LECTURA


Los libros son tediosos de leer. En ellos no existe la libre circulación. Se nos invita a seguir un camino. El recorrido está trazado, y es único.

Muy distinto es el cuadro: inmediato, total. A la izquierda, también a la derecha, en profundidad, sin trabas.

En él no hay un solo itinerario, sino mil; y las pausas no vienen señaladas. En cuanto uno lo desea, el cuadro entero reaparece, íntegro. En un instante está allí todo. Todo, pero aún nada es conocido. Es aquí donde debe comenzar la LECTURA.



OBSERVACIONES


Escribo para recorrerme. Pintar, componer, escribir: recorrerme. En eso reside la aventura de estar vivo.

¿Te gusta alguien, lo admiras? Procura, antes que nada, producir en ti aquello mismo que tan extraordinario te parece en el otro.

Me pregunto qué lengua me gustaría oír en mi lecho de muerte, suponiendo que tenga una cama y algún recogimiento. Pero ni pensarlo. Apuesto a que será una hora más de fracaso.

¿Sincero? Escribo para que aquello que era verdad deje de serlo. Una prisión mostrada ya no es una prisión.

Conozco tan poco mi rostro que, si me mostraran otro del mismo género, sería incapaz de advertir la diferencia (salvo, quizá, desde que empecé a hacer estudios de rostros).

(...) Las artes siguen complaciéndose demasiado en sus servidumbres.



LÍNEAS


Sobre unas líneas trazadas sin propósito sobre el papel;

sobre unas páginas rayadas.


Ennoblecida por un trazo de tinta,

una línea fina,

una línea donde ya nada hiede.


No para explicar,

no para exponer,

no en terrazas,

no monumentalmente.


Sino más bien del mismo modo que en el mundo hay anfractuosidades,

sinuosidades,

del mismo modo que hay perros vagabundos,

una línea,

una línea,

más o menos una línea...


En fragmentos,

en sus primeros gérmenes,

sorprendida de improviso,

una línea,

una línea,

una línea...

una legión de líneas.


Pececillo de las aguas nuevas de un sentimiento que despunta,

que habla,

que ríe,

que se arrebata

o que, a veces, se pone a apuñalar.


Escapadas de las prisiones recibidas en herencia;

venidas no para definir,

sino para indefinir,

para pasar el rastrillo por encima,

para volver a escapar de la escuela;

líneas,

aquí y allá,

líneas,


que descienden,

zigzaguean,

se sumergen,

soñadoramente,

distraídamente,

múltiplemente...

en deseos que se desperezan,

que liberan.



Conserva intacta tu debilidad. No procures adquirir fuerzas, sobre todo de esas que no son para ti, que no te están destinadas, de las que la naturaleza te preservaba, preparándote para otra cosa.

Llega hasta el final de tus errores, al menos de algunos de ellos, para observar muy bien de qué clase son. De lo contrario, si te detienes a mitad de camino, avanzarás siempre a ciegas, reincidiendo en la misma clase de errores desde el principio hasta el fin de tu vida, realizando aquello que algunos llamarán tu «destino». Obliga al enemigo, que es tu propia estructura, a descubrirse. Si no has podido torcer tu destino, no habrás sido más que un apartamento de alquiler.




Lo que yo veo es, sobre todo, su movimiento. Soy de quienes aman el movimiento; el movimiento que rompe la inercia, que enreda las líneas, deshace las alineaciones, me libra de las construcciones. El movimiento como desobediencia, como una nueva disposición.

Una vez más puedo ser espontáneo, enteramente espontáneo, sin correcciones, sin segunda versión, sin tener que volver atrás, sin hacer retoques. Desde el primer trazo.

El trazo como una bofetada que vuelve inútiles las explicaciones. Pintura para el azar, para que perdure la aventura de lo incierto, de lo inesperado. Años después, sigue siendo siempre esa aventura.




Por querer atrapar los insectos, atrapar se había convertido en lo dominante, en algo tan poco natural en mí (una adquisición tardía); atrapar, cuyo opuesto es «recogerse», no enriquecerse con nada, mantenerse reservado.

Al fin y al cabo, ATRAPAR no era sino dinamismo, un atrapar abstracto; hacia eso se tendía.

Por carecer de lo principal,

atrapar desordenadamente,

de manera exagerada,

aturdirme con ello,

hacerme insecto para atrapar mejor,

con patas de garfio para atrapar mejor,

insecto,

arácnido,

miriápodo,

ácaro,

si fuera preciso,

para atrapar mejor.


Volver a encontrar la danza original de los seres más allá de la forma

y de todo el tejido conjuntivo del que están atiborrados,

más allá

de este inmóvil embalaje que es la piel de los seres.


La línea no es un resumen del volumen ni de la superficie;

es un resumen de cien gestos,

de cien actitudes,

de cien impresiones

y emociones.


Volver a encontrar un todo simultáneo.

Un resumen dinámico hecho de lanzas,

no de formas.



CATEDRALES


Por fin edificadas,

por fin a imagen de nuestra desmesurada medida,

dominando vertiginosamente metrópolis y aldeas,

unidos, nosotros y ellas,

a pesar de su masa y de su dureza,

como hermanos gemelos pegados por la boca,

por la rabia,

por los riñones,

por el ano,

por la común abyección imposible de olvidar,

por todo cuanto ha fracasado implacablemente desde el principio,


por la desgracia de nuestra condición,

por toda la vieja cola reumática,

por la nueva implantación, que hiere más,

todavía más deformadora,

por la, sin embargo, inextinguible tendencia a sublimar,


catedrales,

monstruosamente apuntaladas contra el rostro del cielo,

nuestras catedrales,

¿cuándo os veremos?



Henri Michaux

El retiro por el riesgo. Antología poética

14.7.26

Jacarandás, mayo 2026. César Barrio




Todo sentido visible, todo lo visible produce y niega su sentido.


(...) Una muesca

o inciso por el que cupiera, pudiera

caber la rama respirable de la acacia

que ante la casa crece. Algo para 

decir y repetir, murmurar por el rumor,

por un girar de ecos. Un hueco entre sustancias.


(...) Desde cavernas trae

presentes verdor y velos

blancos.

                ¿De qué hablamos cuando hablamos

solos? Pentimento. Dibujar otra ves

los nervios de las hojas,

qué luz

hubo,

y ahora viaja en avión, línea 

anaranjada bordeando los pájaros, eso

de lo que habla.


(...) Lo irreal se refiere a la vida,

el mundo –árboles, animales, el campo, los objetos– es plenamente real,

lo irreal corresponde al estar, al presente, a la actividad del ser.

Por una parte, lo aleatorio –vivir aún–, lo delgado de nuestra presencia

y lo inestable, evanescente de nuestra relación con los otros

–qué epidérmico, o acotado, limitado según el tipo de relación,

es nuestro contacto–,

si a ello se une la velocidad del hacer y acontecer, resulta ese 

vertiginoso deslizarse de imágenes, sensaciones, sonidos, de

lo irreal forma parte la contigüidad indistinta de los tiempos

–repentización del pasado, extrañeza del presente...

la escritura retiene ese deslizarse, o da cuenta de él, lo hace su

objeto,

y dar cuenta de lo real que, en cambio, aparece el mundo.


La memoria –lo ensimismado de la memoria– como topos

de rara incongruencia: a un tiempo, lugar de refugio y de intemperie.


(...) Cuerpo es lo otro.

Irreconocible. Dolor.

Sólo cuerpo. Cuerpo es no yo.

No yo.

Lo quieto de las cosas

en el atardecer. La quietud,

por ejemplo, de los edificios.

El ensombrecimiento

mudo y apagado.


Pensar es pensar el cuerpo, pensarnos en el mundo –lo que significa: estamos y no estamos. En el mundo. El mundo de un poeta, de una poeta es reducido; su mirada focaliza aspectos limitados, obsesivos, enfermos; manifestaciones o sintomas de una disposición del ánimo. Ese mundo además es lento; las transformaciones (condensaciones, acotaciones novedosas, hallazgos de los mismo –aquí, aquello–) son lentas; años para un giro, para otro matiz, para un caer en la cuenta. Quien trabaja el poema es pájaro y caracol a un tiempo, leve, y audaz y concentrado en sí, quieto, ensimismado. La obra responde a las calidades muy precisas de su percepción y su memoria; a una sensibilidad formada en carnosas dependencias familiares y en mecanismos asociativos irreductibles. El modo en que construye su mundo es su aportación a la lengua. Pienso en Vallejo, en Rosalía, en Else Lasker-Schüler, en Lezama, en Traki, en Jaime Saenz... La forma pasa cada uno de ellos es la única posible, y esa forma es pensamiento, un modo de un mirar el mundo, una manera de relacionarse con los muertos, de ir a la muerte.


La poesía, como la filosofía, trabaja a la contra, por ejemplo, contra la cultura, contra la lengua de la cultura, contra el método, contra lo que se sabe hacer, y contra la idea de musicalidad que parece perseguirla, idea que actúa con frecuencia diluyendo la precisión, esa cualidad irrenunciable de lo poético –y el llamado rigor formal es sólo el modo de alcanzar la precisión.


(...) El sonido

que bandadas de gaviotas producen

es externo, el encharcamiento

estacional de las tierras

llanas, ese espejo, pecho desnudo,

graznidos para lo vulnerable.



Olvido García Valdés

El mundo es un jardín

Círculo de Bellas Artes, Madrid. Primavera de 2009

10.7.26

Maqueta, 2026. César Barrio





Qui parle (dans le récit) n'est pas qui écrit (dans la vie) et qui écrit n'est pas qui est.


El que habla (en el relato) no es el que escribe (en la vida) y el que escribe no es el que es.



Roland Barthes

7.6.26

Lugar del elogio, Carlos León

MUSAC, León


6 de junio, 2026 - 18 de octubre, 2026





He arrojado al fuego el mapa de todos los caminos, he quemado también planos y apuntes, no llevo conmigo carta de navegación. La definitiva tirada de dados aguarda en el aire. Surco las aguas del que marcha hacia la guarida del sueño, hacia el palacio del último invierno, hacia el salón del último baile.
Abrazado a mi propio sino, intento vislumbrar la costa. La voz pegada a mi oído solo repite: ahora, ahora, ahora…
Voy al encuentro de lo prometido, de lo más secretamente ahorrado. Me espera el regazo de una nueva estancia interior que toma cuerpo en la opacidad de un nuevo Deseo.
Relámpagos constantes iluminan la penumbra de lo salvaje de este tránsito: pared de oro alcanzada por la antorcha del furtivo.
Recuerdo una vez más las vendimias de antaño, el bulto y el peso de los racimos sobre las manos abiertas. Y el rebosar de los cestos sobre los carros de madera.
Nunca ví color semejante al de aquellas uvas recién cortadas. Nunca después sentí con tal claridad la presencia de lo mistérico en lo natural. Como una herida floreciendo en el cuerpo mismo de la Belleza.
Tal vez la última razón de cuanto uno hace no sea sino el intento de regresar, siquiera por unos instantes, siquiera mediante ese simulacro que llamamos arte, a un revivir momentos semejantes. A esos que uno llama “ los del pequeño esplendor del existir “.


Carlos León
Marzo, 2024 

19.5.26

Noé Sendas





CANCIÓN


La belleza es una concha

nacida en el mar

donde invicta reina

hasta que el amor la doblega.


Vieiras y

veneras

esculpidas al

son de olas en retirada.


Acentos imperecederos

repetidos hasta

que ojos y oídos se acuestan

juntos en la misma cama.



William Carlos Williams

12.5.26

Lightning Fields, 2009. Hiroshi Sugimoto





Si habitamos un relámpago, es el corazón de lo eterno.


René Char

11.5.26

Job burlado por su mujer, 1620-1650. Georges de La Tour




La reproducción en color del Prisionero de Georges de La Tour que he clavado en la pared de cal de la habitación donde trabajo parece,  con el tiempo, reflejar su sentido sobre nuestra condición. Oprime el corazón, mas ¡qué bien apaga la sed! Desde hace dos años, ni un solo refractario ha podido atravesar la puerta sin quemar sus ojos en las pruebas de esta candela. La mujer explica, el emparedado escucha. Laspalabras que van cayendo de su terrestre silueta de ángel rojo son palabras esenciales, palabras que auxilian inmediatamente. Al fondo del calabozo, los minutos de sebo de la claridad estiran y diluyen los rasgos del hombre sentado. Esa su delgadez de ortiga seca, no veo ni un recuerdo que pueda hacerla temblar. La escudilla es una ruina. Pero la falda hinchada de repente llena todo el calabozo. El Verbo de la mujer hace nacer lo inesperado mejor que cualquier aurora.

René Char
Furor y misterio

5.5.26

Figuras, 2023 - 2025. Manuel Rosa. Galeria Fernando Santos, Porto






Conviene que la poesía sea inseparable de lo previsible, pero todavía no formulado.

Tierra movediza, horrible, exquisita, y condición humana heterogénea se apropian una de otra y se cualifican mutuamente. La poesías e extrae de la suma exaltada de sus reflejos.

El alojamiento del poeta es uno de los más imprecisos: el abismo de un fuego triste licita su mesa de madera blanca.
La vitalidad del poeta no es una vitalidad del más allá, sino un punto diamantado actual de presencias transcendentes y de tormentas peregrinas.

No te demores en el surco de los resultados.

A nadie pertenecemos salvo al punto de oro de esa lámpara, desconocida e inaccesible para nosotros, que mantiene la vigilia del valor y el silencio.

Uno no pelea sino por las causas que él mismo moldea: al identificarse, arde con ellas.

Actuar como primitivo y prever como estratega.

Las cosechas más puras se siembran en un suelo que no existe. Eliminan la gratitud y solamente están en deuda con la primavera.

Acercar una cerilla a la lámpara y lo que se enciende no alumbra. Es lejos, muy lejos de tí, donde el círculo ilumina.

El fruto está ciego. Es el árbol quien ve.

La lucidez es la herida más cercana al sol.

¿Estamos destinados a no ser sino comienzos de verdad?

En tu cuerpo consciente, la realidad adelanta algunos minutos de imaginación. Ese tiempo nunca recuperado es un abismo extraño a los actos de este mundo. Nunca se trata de una sombra simple a pesar de su aroma de clemencia nocturna, de supervivencia religiosa, de infancia incorruptible.

De manera brusca, recuerdas que tienes un rostro.

En el bucle de la golondrina se forma una tormenta, se construye un jardín.


René Char
Furor y misterio

14.4.26

Cueva de Lascaux, Francia







LA BESTIA DE LASCAUX




La bestia innominable


La Bestia innominable cierra la marcha del gracioso rebaño, como un cíclope bufo.

Ocho escarnios forman su atavío y reparten su locura.

La bestia regüelda devotamente en el aire rústico.

Sus costillares atiborrados y cadentes están doloridos y van a vaciarse se su embarazo.

Desde su pezuña a sus vanas defensas está envuelta en su fetidez.


Tal me parece el friso de Lascaux, madre fantásticamente disfrazada.

La Sabiduría con ojos llenos de lágrimas.



En el Fedro, Platón evoca, para condenarlo, un extraño lenguaje: hete aquí que alguien habla y, sin embargo, nadie habla; es de hecho un habla, pero ella no piensa en lo que dice, y dice siempre lo mismo, incapaz de escoger a sus interlocutores, incapaz de responder si le interrogan y de prestarse auxilio si la atacan: destino que la expone a rodar por todos los lados, al azar, y que expone a la verdad a que se convierta en simiente de azar; confiarle lo verdadero es realmente confiarlo a la muerte. Así, pues, Sócrates propone que, de esta habla, nos apartemos lo más posible, como de una enfermedad peligrosa, y que nos mantengamos en el verdadero lenguaje, que es el lenguaje hablado, donde el habla está segura de encontrar en la presencia de quien la expresa una garantía viviente.

Habla escrita: habla muerta, habla del olvido. Esta extrema desconfianza hacia la escritura, compartida todavía por Platón, muestra qué duda ha podido alumbrar, qué problemas suscitar el uso nuevo de la comunicación escrita: ¿qué es esta habla que no tiene tras sí la caución personal de un hombre verdadero y preocupado por la verdad? El humanismo ya tardío de Sócrates se encuentra aquí a la misma distancia de dos mundos que no desconoce, que rechaza mediante una elección vigorosa. Por un lado, el saber impersonal del libro que no pide star garantizado por el pensamiento de uno solo, pensamiento que nunca es verdadero, porque no puede convertirse en verdad sino en el mundo de todos y merced al advenimiento mismo de ese mundo. Un saber así está ligado al desarrollo de la técnica bajo todas las formas y hace del habla, de la escritura, una técnica.

Pero Sócrates, que rechaza el saber impersonal del libro, no rechaza menos –aunque con más reverencia– otro lenguaje impersonal, el habla pura que da sentido a lo sagrado. No pertenecemos ya, dice, a aquellos que se contentaban con escuchar la voz de la encina o la de la piedra. "Vosotros, los modernos, queréis saber quién es el que habla y de qué país es". De modo que todo lo dicho contra la escritura serviría, por otra parte, para desacreditar el habla recitada del himno, allí donde el rapsoda, ya sea el poeta o el eco del poeta, no es ya sino el órgano irresponsable de un lenguaje que le sobrepasa infinitamente.

Y, en eso, misteriosamente, la escritura, vinculada no obstante al desarrollo de la prosa, cuando el verso deja de ser un medio indispensable de memoria, la cosa escrita aparece como esencialmente cercana al habla sagrada, de la cual parece llevar consigo en la obra su misma extrañeza, de la cual hereda la desmesura, el riesgo y la fuerza que escapa de todo cálculo y que rehúsa cualquier garantía. Como el habla sagrada, lo que está escrito viene de no se sabe dónde, carece de autor y de origen y, por esa vía remite a algo más original. Detrás del habla de lo escrito, nadie está presente, sino que ella da voz a la ausencia, como el oráculo, donde lo divino habla, el propio dios no está nunca presente en su habla, mientras que quien habla es la ausencia de dios. Y el oráculo, no más que la escritura, no se justifica, no se explica, no se defiende: no hay diálogo con lo escrito y no hay diálogo con el dios. Sócrates se queda asombrado con este silencio que habla.

Ante la extrañeza de la obra escrita, su desazón es finalmente lo que experimenta ante la obra de arte cuya insólita esencia le inspira desconfianza, si no desprecio: "Sin duda, esto es, Fedro, lo terrible que hay en la escritura, su semejanza con la pintura: ¿no se presentan los retoños de ésta como seres vivos?, ¿pero no se callan majestuosamente cuando se les interroga?". Lo que por tanto le choca, lo que le parece "terrible", es, en la escritura tanto como en la pintura, el silencio, el silencio majestuoso, mutismo en sí mismo inhumano, que hace que pase el arte el escalofrío de las fuerzas sagradas, esas fuerzas que, mediante el horror y el terror, abren al hombre hacia regiones extranjeras.

Nada más impresionante que esta sorpresa ante el silencio del arte, esta desazón del amante de las palabras, del hombre fiel a la honestidad del habla viva: ¿qué es esto que tiene la inmutabilidad de las cosas eternas y que, sin embargo, es sólo apariencia, que dice cosas verdaderas, pero detrás de lo cual no hay sino el vacío, la imposibilidad de hablar, de tal manera que aquí lo verdadero no tiene nada para sostenerlo, aparece sin fundamento y es el escándalo de lo que parece verdadero, pero que sólo es imagen y, mediante la imagen y la apariencia, atrae a la verdad a una profundidad donde no hay ni verdad, ni sentido, ni siquiera error? Por eso, Platón y Sócrates, en el mismo pasaje, se apresuran a convertir la escritura, así como el arte, en una diversión donde lo serio no está comprometido, que se reservará para las horas de recreo, semejante a esos jardines en miniatura formados artificialmente en cestos para la ornamentación de las fiestas, llamados jardines de Adonis. El discurso escrito, el "volumen" no será, pues, sino un jardín en letras de escritura", capaz todo lo más de conmemorar las obras o los acontecimientos del saber, sin tener ninguna participación en el trabajo de su descubrimiento. (...)

Uno se pregunta a veces por qué René Char, poeta ligado a nuestro destino, se siente íntimamente cercano al nombre de Heráclito del que él mismo ha evocado su figura victoriosa, su "vista de águila solar", "genio fiero, estable y ansioso", pero al que evocan y traen consigo ante nosotros, por una llamada más inmediata, tantas de sus obras, destellos de poema donde el poema parece reducido al filo del puro destello, al corte de una decisión.

Quizá un principio de respuesta se nos dará a través de dos pensamientos de Heráclito. Heráclito responde en ellos de alguna manera a Sócrates al reconocer la verdadera autoridad del lenguaje en eso que convierte el habla impersonal del oráculo en un peligro y un escándalo: "El Señor cuyo oráculo está en Delfos no expresa ni disimula nada, sino que indica." El término "indica" está aquí de vuelta a su fuerza de imagen y convierte la palabra en el dedo silenciosamente orientado, el "índice cuya uña está arrancada" que, sin decir nada, sin ocultar nada, abre el espacio, lo abre a quien se abre a esta venida. Sócrates tiene sin duda razón: lo que el quiere no es un lenguaje que no diga nada y detrás del cual no se disimule nada, sino un habla segura, garantizada por una presencia: que se pueda intercambiar y hecha para el intercambio. el habla de la que se fía es siempre habla de algo y habla de alguien, uno y otro siempre ya revelados y presentes, nunca un habla en ciernes. Y, por esto, deliberadamente, con una prudencia que no hay que desconocer, renuncia a todo lenguaje vuelto hacia el origen, tanto al oráculo como a la obra de arte por la que se da voz al comienzo, llamada dirigida a una decisión inicial.

El lenguaje en quien habla el origen es esencialmente profético. Esto no significa que dicte los acontecimientos futuros, eso quiere decir que no toma apoyo en algo que ya exista, ni sobre una verdad vigente, ni sobre el mero lenguaje ya dicho o verificado. Anuncia, por el hecho de que comienza. Indica el porvenir, por el hecho de que él, lenguaje del futuro, no habla todavía, por ser él mismo como un lenguaje futuro, que siempre se adelanta, no teniendo su sentido y su legitimidad sino delante de sí, es decir, estando fundamentalmente injustificado. Y tal es la sabiduría falta de razón de la Sibila, la cual se hace escuchar durante mil años, porque nunca es escuchada ahora; y este lenguaje que abre la duración, que desgarra y que principia, carece de sonrisa, de adorno y de fingimiento, desnudez del habla primera: "La Sibila que, con boca espumosa, hace que se oigan palabras sin atractivo, sin adorno y sin fingimiento, hace que resuenen sus oráculos durante mil años, porque quien le inspira es el dios."


Si se juzgara útil recuperar en pocos trazos la fuerza del poema tal como éste se esclarece en la obra de René Char, uno podría contentarse con decir que él es esta habla futura, impersonal y siempre venidera donde, con la decisión de un lenguaje en ciernes, sin embargo se nos habla íntimamente de lo que se ventila en nuestro más próximo y más inmediato destino. Es, por excelencia, el canto del presentimiento, de la promesa y del despertar –no es que él cante lo que sucederá mañana, ni que en él un porvenir, feliz o infeliz, nos sea revelado–, pero vincula firmemente, en el espacio preservado por el presentimiento, el habla al vuelo, y, por el vuelo del habla, preserva firmemente el advenimiento de un horizonte más amplio, la afirmación de un día primero. El porvenir es raro, y cada día que viene no es un día que comienza. Más rara todavía es el habla que, en su silencio, es reserva de un habla venidera y nos hace girar, aunque fuere muy cerca de nuestro fin, hacia la fuerza del comienzo. En cada una de las obras de René Char, escuchamos que la poesía pronuncia el juramento que, en la ansiedad y la incertidumbre, la liga a su propio porvenir y la obliga a hablar sólo a partir de ese porvenir, para dar, de antemano, a esta venida, la firmeza y la promesa de su habla.

(...) Todo habla en ciernes, aun cuando fuere el movimiento más suave y más secreto, es, puesto que nos precede infinitamente, la que más quebranta y exige: como el más tierno nacer del día en que se declara toda la violencia de una claridad primera, y como el habla oracular que nada dicta, que no obliga a nada, que ni siquiera habla, sino que convierte ese silencio en el dedo imperiosamente apunta con fijeza al universo.


Cuando lo desconocido nos interpela, cuando el habla le toma prestado al oráculo su voz donde nada actual habla, sino que fuerza a aquel que lo escucha a arrancarse de su presente para venir hasta sí mismo como hasta lo que aún no es, esta habla a menudo es intolerante, poseedora de una violencia altanera que, en su rigor y a través de su sentencia indiscutible, nos despoja de nosotros mismos ignorándonos. (...)

La oportunidad que tiene el poema de poder escapar de la intolerancia profética, y esta oportunidad con una pureza de la que no nos damos cuenta, es lo que la obra de René Char nos ofrece, ella que nos habla desde tan lejos, pero con una íntima comprensión que nos la convierte en tan próxima – que tiene la fuerza de lo impersonal, siendo a la fidelidad de un destino propio a lo que nos llama, obra tensa, pero paciente, borrascosa y llana, enérgica, concentrando en ella, en la explosiva brevedad del instante, una potencia de imagen y de afirmación que "pulveriza" el poema y sin embargo preservadora de la lentitud, la continuidad y la armonía de lo ininterrumpido. (...)


Si el habla del poema, en la obra de René Char, evoca el habla del pensamiento en Heráclito, tal como nos ha sido transmitida, se lo debemos, parece, a esta relación con el origen, relación, en uno y otro, no del todo confiada ni estable, sino desgarrada y borrascosa. Jenófanes, sin duda más joven que Heráclito, pero uno de los que como a éste, con una ternura un poco burlona, Platón llamaba los Viejos, era uno de esos aedas errantes, que iban de país en país viviendo de sus cantos; el pensamiento era ya solamente eso que cantaba en su canto, un habla que denegaba las leyendas de los dioses, las interrogaba ásperamente y se interrogaba a sí misma, de modo que los que la escuchaban asistían a este acontecimiento muy extraño: el nacimiento de la filosofía en el poema.

Es, en la experiencia del arte y en la génesis de la obra, un momento en que ésta no es todavía sino una violencia indistinta que tiende a abrirse y tiende a cerrarse, tendiendo a exaltarse en un espacio que se abre y tendiendo a retirarse en la profundidad del disimulo: la obra es entonces la intimidad en lucha de momentos irreconciliables e inseparables, comunicación desgarrada entre la medida de la obra que se convierte en poder y la desmesura de la obra que quiere la imposibilidad, entre la forma donde ella se capta y lo ilimitado donde se rehúsa, entre la obra como comienzo y el origen a partir del cual nunca hay obra, donde reina la eterna desobra. Esta exaltación antagonista es lo que funda la comunicación y quien tomará finalmente la forma personificada de la exigencia de leer y de la exigencia de escribir. el lenguaje del pensamiento y el lenguaje que se despliega en el canto poético son como las diferentes direcciones que ha tomado ese diálogo original, pero, en uno y en otro, y cada vez que uno y otro renuncian a su forma sosegada y remontan hacia la fuente, parece que comienza de nuevo, de una manera más o menos "viva", ese combate más original de exigencias más indistintas, no sólo, si es posible decirlo, que toda obra poética, en el curso de su génesis, es retorno a la impugnación inicial sino también que, incluso, en cuanto que es obra, no cesa de ser la intimidad de su eterno nacimiento.

Tanto en la obra de René Char como en los fragmentos de Heráclito, asistimos momento a momento a esa eterna génesis, a ese duro combate al lado del anterior, allí donde la transparencia del pensamiento se cnvierte en luz del día en virtud de la imagen oscura que lo retiene, donde el habla misma, sufriendo uan doble violencia, parece aclararse por el silencio desnudo del pensamiento, parece espesarse, llenarse con la profundidad parlante, incesante, murmullo donde nada se deja oír. Voz de la encina, lenguaje riguroso y cerrado del aforismo, así es como nos habla, dentro de la indistinción de un habla primera, "madre fantásticamente disfrazada, la Sabiduría con los ojos llenos de lágrimas" que, mirando el friso de Lascaux, René Char ha identificado con la figura de la "bestia innominable". Extraña sabiduría, demasiado antigua para Sócrates y también demasiado nueva, de la cual, sin embargo, a pesar de la desazón que obligaba a alejarse de ella, se debe creer que no está excluido, él que sólo aceptaba como garante del habla la presencia de un hombre vivo y que sin embargo por eso llegó a morir, a fin de mantener su palabra.



Maurice Blanchot

11.1.26

Riappropriazione, 2017. Converso, Milan. Franco Mazzucchelli






El conocimiento del límite

no está hecho de memoria.


Y lo que ahora está

¿es lo que siempre estuvo? Así tal vez

no hay nunca nada que no sea previo

y en lo anterior se encuentra

el ser. Resulta entonces tan veraz

que no existe el pasado

como que todo arraiga

en la distancia. Así, la identidad

reside en lo carente de existencia;

lo que es, en lo que no es.


Tal vez

lo que se observa cada día tenga

con la realidad

extraños vínculos, del mismo modo

que la apariencia de las cosas corre

diferente del tiempo.


ENCERRADO, anota sin pausa,

se pregunta obsesivamente

por cómo se percibe, cómo se nombra

lo que se percibe, sobre todo

los colores –"en la paleta, el blanco

es el color más claro", o por qué

"algo transparente

puede ser verde, pero nunca blanco".

Escribe a mano, luego dicta

a máquina; recorta trozos

de papel y los separa, pega unos 

en otros, no recuerda lo escrito

antes y, en el desorden de la memoria,

encuentra palabras libres

que pesan, destellos, líneas

que el pensamiento

aún recorre.


EL error y el acierto

no tienen naturaleza distinta;

el error es solo un acierto

al que se deja crecer.

Esta es la esterilidad

de la balanza.


SOBRE la mesa, un montón

de polvo de ladrillo, casi

anaranjado. En el papel

el trazo de un dedo.


LO que está por venir

–vario, misceláneo, ajeno

a jerarquía– mantiene la vida

tensa: en movimiento y casi

a punto de romperse. La llena

vaciándola. No viene.


AUTORRETRATO ante el espejo

del hombre flaco

y ya mayor, impreciso

de formas, completamente

cano. Pudo pintar

la miopía mirándose con esos ojos

hundidos y velados, con esos

ojos de no ver, toda la vida

mirando y sintiendo

el sentimiento de la vida.



Miguel Casado

Deseo de realidad. Poesía Reunida

21.12.25

Fotografías: Ernesto García




A LA MEMORIA DE DYLAN THOMAS

Hizo falta un arroyo y un ave reflejada,
la arena y el más largo capítulo del Éxodo,
milnavegados mares, las ramas del manzano
arrojadas al río, coronándose en rumbo.
Y el vientre de la madre con una especie extinta.
Y el sol debió ganar la espalda a la tormenta,
partirse en dos la fe, calzar el verde esparto.
Y hubo que hablar al padre de elegías sin tumba,
y aprender el oficio del que alentó los fuegos,
ver al delfín buscar las sombras de los buques,
latir su corazón de proa ennegrecida.
Hizo falta la ortiga, los huesos de un caballo,
el tuétano que guarda la gloria del galope,
cavar, romper el himno, ser múltiplo del cielo,
retornar a tu octubre, cruzar el bosque lácteo,
subirse a las colinas, a dormir en graneros
donde los gallos parten el oro de un maíz
que salta como el dado con que apostar la vida.
Y el verso alejandrino, la copia de los árboles
combados en los ojos del triste y del jilguero,
la campana que ahonda la habitación vecina
hasta llegar al salmo del que dudó los valles.
Todo fue necesario, el grito de los gamos,
las zarpas del gorrión nerviosas e mis dedos,
el átomo, el silencio sin luz de los amantes,
para que al fin la muerte perdiera sus dominios.



ELEGÍA A JOSEPH BRODSKY, MUERTO
UN MES DE ENERO.
A LA MANERA DE SU POEMA A JOHN DONNE

Brodsky duerme. Y el mar. El plenilunio duerme.
Todo cesa, descansa; la cuenta de la luz,
los códigos, los sótanos, la mesa, el guardagujas,
la nieve con su resto de lenguas que cantaron.
Y las vetas del mármol tendidas como cirros
en brazos de una estatua duermen su fora extrema.
El honor, la escalera, las bolas de mercurio
que en la mano de un niño son hombres sin encuentro,
la sílaba y su oficio, tendrán la misma noche.
Un enero fue Judas. El tiempo es su discípulo.
Brodsky duerme. Y el sol. Y los que sigen en pie
miran por la ventana que encuadra lo que fueron.
El número del preso, el fiel de la balanza,
las mujeres, las llaves, los pasadizos, duermen. 
Los errores de Newton en cada telescopio,
la tormenta batiendo su cola de ballena,
el abrigo olvidado en un patio escolar.
Enero sueña ráfagas.
Brodsky duerme a sabiendas de que ocurrimos lejos,
con la voz enfriándose como piedras de iglesia.



CUADRANTE NORTE

Primero el viento y su mitología,
las páginas leídas a naciente,
el ancla y su eslabón
hundiéndose en la espuma.
Y en el mistral las manchas de los vuelos,
la gaviota que esparce los destellos del faro
como harina que lleva el marino en su ruta.
Y el agua en dos, y luego en ocho nudos
tensados en las costas,
donde brilla el centeno al calor de los hornos,
allá donde el ladrillo y el fuego son la casa,
aquella incandescencia en la que ser posibles.

Al descender las nieblas,
los rebaños destilan como pechos.
No hay oteros, no hay causa, no hay olvido,
sólo el iris del zorro
y su espinazo de pajar ardiendo.
Las aves alargaron su sombra dos jornadas,
se hicieron tallo, fueron la cadena
en la polea de la lluvia
que nos engrana a nuestra predicción.
El árbol no cimbrea,
pero sigue en la fronda la invención de su ciclo.
Y así, cercado en sus florecimientos,
el mundo va borrando meridianos.



Fragmento de 
EL DESCENDIMIENTO DE LA CRUZ
DE ROGIER VAN DER WEIDEN

No es carne. Es un lugar,
                                           un deshielo,
un arroyo que será país.



Fragmento de
POEMA DE AMOR SIN OBJETO (APARENTE)

Una línea es un llegar a pensar,
pero no es el pensamiento.



RECTAS DISJUNTAS

Quien empieza a escribir este poema
y el que va a terminarlo
no son el mismo hombre.
No lo serán, ni en el tiempo,
ni en el espacio.
Jamás coincidirán.
Nada sabrán el uno del otro.
un comienzo exige unidad,
un cúmulo de esencia.
un final pide significado,
sentarse, callar, transcribir.
El uno será proceso, subida;
el otro será casa, resonancia,
                lo concebido.
Los dos, el que empieza,
el que termina,
han pensado el mismo mundo
que los separa; los dista.
El uno es un tiempo de inicio,
el otro su final originario,
salvación, necesidad de acabar,
     quietus no mensurable.



Fragmento de
HOMENAJE-ELEGÍA
A T. S. ELIOT

(...)
que, sin embargo, no es inicio,
pero es sonido, sonido previo
a la imagen que uno tiene de sí,
porque siempre algo (nos) antecede:

la huella, a la cima,
la pluma, al cuelo,
lo que fluye, a la helada

No importa el dónde:
nunca vas, nunca vamos;
las confluencias
                    están llenas de no lugar,
y no puedes decir: "al fin",
y no puedes decir: "ahora",
nada que sea llegada, afirmarlo.
Las confluencias son proyección,
lo contado con la mente

(...)
      parece que se ve mejor la luz,
pero sólo es impresión, descuido
de la mente
                        –que obra opuestos–;
            y el jaloque,
            el levante,
            el gregal
            y el mediodía

no tienen hacia dónde,
                                        ni dónde;
si lo tuvieran serían narración,
probable ecuación, velocidad,
elipse, partícula acelerada,
página posible en el tiempo posible,
espacio pensado para caber,
como caben las bandadas
en las migraciones,
                           en el ir y venir
                           al clima de tu mente.



Fragmento de
UN BUSTO DE NICOLÁS DE LEIDEN

(...)
En este bloque hay un hombre,
y detrás un doble, un sí mismo,
un útero, una helada, un ignorar,
un lóbulo frontal, una danza,
un ojo de puente, una teja,
un repecho, un rebasar, un volver.
       Una cavidad.


Ramón Andrés
Oír las grietas
Antología poética, 1988-2023
Selección: Francisco Javier Irazoki
Museo Arqueológico Nacional de Atenas, Grecia




Este diálogo, me parece, no acepta límites entre los géneros ni entre las artes. A la poesía le aportó tanto la narrativa del siglo (Juan Rulfo, Franz Kafka, Clarice Lispector, Robert Walser...) como la propia poesía. O la pintura: no solo las imágenes que acompañan, evidente o subterráneamente familiares o afines, sino lo que algunos nombres de la pintura suponen de problematización y apertura de los modos del oficio: la abstracción, la supresión de marcos compositivos esperables, la fragmentación o amputación frente a la contextualización convenida, la extrema intensificación y las formas en que se consigue (Gorky, Luis Fernández), la presencia de lo morboso junto a lo conceptual o nihilista (Malevich), la dosificación de lo secamente conceptual y de lo húmeda o humoralmente corporal: los humores del cuerpo, y el recorte, el tacto de la vista o pensamiento (Klee)...

Un poema no viene de la mano de la voluntad o la consciencia, se toma su tiempo, espera, aparece o no aparece, fluye a través de lo periférico, lo periférico conforma lo central. en esa fase, el trabajo es subterráneo, algo de lo inconsciente o lo preconsciente cuaja y ello ocurre no cuando uno quiere sino cuando ello quiere. Por ejemplo, durante mucho tiempo supe que para caza nocturna me faltaba un poema que respondiese a lo que yo llamaba pastoral (Pastoral era también el título de un cuadro de Arshile Gorky); ese poema tenía que ver con cierta memoria mía de la infancia, pero no supe escribirlo hasta que no cuajó en la forma de un sueño.
En una entrevista, Gary Snyder se refería a la meditación con estas palabras: "de hecho, como sabe cualquiera que haya practicado suficientemente la meditación, aquello a lo que se apunta no es nunca lo que se alcanza. Aquello a lo que se apunta no es, curiosamente, lo que se obtiene; la voluntad consciente no puede alcanzarlo. Hay que practicar una especie de distracción cuidadosa, pero en verdad relajada, que permita al inconsciente hacer su propio trabajo de ascenso y manifestación. Sin embargo, en el momento en que uno, alerta, se dispone a apresarlo, se escapa, se desliza hacia el fondo. es algo muy semejante a lo que ocurre en la caza estática: te detienes en algún lugar en el bosque y permaneces inmóvil hasta que las cosas comienzan a vivir, empiezan a aparecer ardillas, gorriones y conejos que estaban ahí desde el principio, pero que se zambullen en algún rincón cuando se nos mira de cerca. También la meditación es así". Como la poesía.

Los poemas, aun si brotan de la imagen más aérea, más luminosa y diurna, más visible, bucean y avanzan como un pez hacia un espacio propio y silencioso –lo visible y su luz están también allí.

A veces me acometen crisis de irrealidad; no de identidad, sino de irrealidad; no quién soy, sino si estoy. ¿Dónde vivimos? (El plural acoge a muchos, pero solos.) No dónde se nos ve, se nos encuentra, sino dónde nos sentimos vivir. ¿Qué lugar es ese, semejante a los del sueño en que no es el de la vida real? Hay estratos ahí, no de profundidad, sino de coloración, de presencia de ciertas afecciones.

Comienzo y final abierto, con frecuencia suspendido, versatilidad en el uso de las personas gramaticales, deslizamiento de una a otra, deslizamiento también de los tiempos –los del pasado y los del presente–, indistinción (en cuanto a grado de realidad) entre imágenes de la memoria, del sueño o de la percepción actual, un ritmo que viene impuesto desde dentro del poema.
Interior y exterior son categorías, metáforas espaciales no estancas. El interior conforma lo exterior (al límite, solo sabemos de las cosas lo que nosotros mismos ponemos en ellas); y el exterior es, por su parte, lo que acaba constituyéndonos de la manera más íntima (el consuelo del campo): solo podemos percibirnos percibiendo.

Pensar es pensar el cuerpo, pensarnos en el mundo –lo que significa: estamos, y no estamos. En el mundo. El mundo de un poeta, de una poeta es reducido; su mirada focaliza aspectos limitados, obsesivos, enfermos; manifestaciones o síntomas de una disposición del ánimo. Ese mundo además es lento; las transformaciones (condensaciones, acotaciones novedosas, hallazgos de lo mismo –aquí, aquello–) son lentas; años para un giro, para otro matiz, para un caer en la cuenta. Quien trabaja el poema es pájaro y caracol a un tiempo, leve, y audaz y concentrado, reconcentrado en sí, quieto, ensimismado. La obra responde a las calidades muy precisas de su percepción y su memoria; a una sensibilidad formada en carnosas dependencias familiares y en mecanismos asociativos irreductibles. El modo en que construye su mundo es su aportación a la lengua. Pienso en Vallejo, en Rosalía, en Lezama, en Jaime Saenz... La forma para cada uno de ellos es la única posible; y esa forma es pensamiento, un modo de mirar el mundo, una manera de relacionarse con los muertos, de ir a la muerte.

La poesía, como la filosofía, trabaja a la contra; por ejemplo, contra la cultura, contra la lengua de la cultura, contra el método, contra lo que se sabe hacer; y contra la idea de musicalidad que parece perseguirla, idea que actúa con frecuencia diluyendo la precisión, esa cualidad irrenunciable de lo poético –y el llamado rigor formal es solo el modo de alcanzar la precisión–.


LA POESÍA, ESE CUERPO EXTRAÑO

El título que he dado a esta lectura (y que será el del libro en que se recoja), La poesía, ese cuerpo extraño, alude, por una parte, a la escritura entendida como segregación que ciertos organismos producen, segregación de algo que forma y no forma parte de ellos: un cuerpo extraño; y quizá nombra también, por otra parte, la extrañeza que a veces causa lo más propio, lo más vivo e innnegociable de uno mismo.
En efecto, hay un modo de estar en el mundo que conlleva necesidad de expresión. Un habla, un hacer que surgen al pensarnos y sentirnos en el mundo; conscientes de la inmediatez y la hermosura, y, al mismo tiempo, del fluir, de la adversidad y la desdicha, de la fragmentación, de lo evanescente de este estar. Tal conciencia genera una inquietud que es modo de conocer, de conocernos.
Memoria, cuerpo, muerte, enfermedad son lugares de esa extrañeza. Lo son también el paisaje y los hechos de la niñez, tan obvios, tan incuestionables –y cuánto esfuerzo para llegar a verlos–. Lo propio ha de ser aprendido ("lo propio debe aprenderse tan a fondo como lo ajeno", decía Hölderlin a Böhlendorf en carta del 4 de diciembre de 1801); el lugar de origen, aquel en el que nos hemos hecho, es lo que mejor conocemos, y, sin embargo, bien mirado, es algo que tardamos mucho en llegar a conocer, que adquiere su forma solo en la distancia.
Tal vez, pienso ahora, solo desde lejos se llega a estar dentro; solo por la distancia volvemos a habitar los parajes, las casas y los seres que nos han conformado como somos. Lo hemos vivido entonces, pero llegamos a conocerlo en la memoria y en la distancia –la distancia… lo que conserva sustancia y consistencia de las cosas; lo que propicia también cierto trabajo obsesivo, fundante estéticamente, de la memoria–.
Lo que llamo niñez no aparece como tiempo y espacio de felicidad, sino, en todo caso, de intensidad, de la intensidad con que percibe una –quizá inherente– condición desdichada de habitar el mundo.
El mundo. Y el cuerpo –deterioro, muerte, paso y peso del tiempo–, el nombre de lo enfermo o de lo solo. Lo que nos hace conocernos. Esos son los lugares a los que vuelve una y otra vez mi escritura.


Olvido García Valdés
De la escritura
La caída de Ícaro