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2.8.26

Henri Michaux
 





(PORT - ESP)



O MAR


O que eu percebo, o que é meu, é o mar indefinido.

Aos vinte e um anos, evadi-me da vida das cidades, aventurei-me, foi marujo. A bordo havia muito que fazer. Fiquei espantado. Pensava que num navio a gente fitava o mar, que infindavelmente fitávamos o mar. 

Os barcos forma depois desaparelhados. Era o desemprego dos marítimos que assim começava.

Voltando as costas àquilo, fui-me embora, não disse nada, tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente em meu redor.

Mas qual mar? Foi isto justamente que eu depois me vi impedido de explicitar.



À ESPERA


Um ser doido,

um ser farol,

um ser mil vezes suprimido,

um ser exilado do fundo do horizonte,

um ser gritando do fundo do horizonte,

um ser magro,

um ser íntegro,

um ser altivo,

um ser que quereria ser,

um ser na batida de duas épocas que se entrechocan,

um ser nos gases venenosos das consciências que sucumben,

um ser como no primeiro dia,

um ser...



UM CERTO FENÓMENO CHAMADO MÚSICA


(...) 

Música, operação do devir, a mais sã operação humana. A música substitui os seres. a mãe, a mulher, a criança, os amigos, naquilo que têm de maravilhoso mas de que só quereríamos amiúde, sem dar por isso, através duma maravilhosa subtracção do que incomoda, guardar apenas isto que os exprime, para os tornar tão inofensivos como as ondas de delícias que dão náuseas. Música, eixo profundo, eixo arcaico que sustém os eixos múltiplos. Eixo, dir-se-ia, anterior à ambivalência.



LEITURA


Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único.

Muito diferente é o quadro: imediato, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias.

Nele não há um trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a LER.



OBSERVAÇÕES


Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo.

Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que tão extraordinário lhe parece no outro.

Pergunto-me que língua gostaria eu de ouvir no meu leito de morte, caso tenha uma cama e algum recolhimento. Mas nem pensar. Há-de-ser, aposto, mais uma hora de falhado.

Sincero? Eu escrevo para que aquilo que era verdade deixe de o ser. Prisão mostrada já não é prisão.

Conheço tão pouco o meu rosto que se me mostrassem um do mesmo género seria incapaz de ver a diferença (a não ser, talvez, desde que comecei a fazer estudos de rostos).

(...) As artes comprazem-se ainda muito nas suas servidões.



LINHAS

Sobre umas linhas traçadas sem objectivo no papel; 

sobre umas páginas de linhas.


Enobrecida por um traço de tinta, uma linha fina, uma linha onde já nada fede

Não para explicar, não para expor, não em terraços, não monumentalmente

Mas antes de maneira como pelo Mundo há anfractuosidades, sinuosidades, antes da maneira como há cães vadios

uma linha, uma linha, mias ou menos uma linha...

Em fragmentos, em primeiros germes, apanhada de súbito, uma linha, uma linha, uma linha... uma legião de linhas

Peixe miúdo da água nova de um sentimento que desponta, fala, se ri, se arrebata ou que às vezes se põe a apunhalar

Fugidas das prisões recebidas como herança, vindas não para definir, mas para indefinir, para passar o ancinho por cima, para voltar a escapar à escola, linhas, aqui e ali, linhas,

Que descem, ziguezagueiam, mergulham para sonhadoramente, para distraidamente, para multiplamente... em desejos que se espreguiçam, que libertam.



Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.

Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do principio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar a teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.



Eu o que vejo é sobretudo o movimento deles. Sou dos que gostam do movimento, do movimento que rompe a inércia, que enreda as linhas, desfaz os alinhamentos, me livra das construções. Do movimento como desobediência, como novo arranjo.

Uma vez mais posso ser espontâneo, totalmente, sem correcções, sem segunda versão, sem ter de voltar atrás, de fazer retoques. Logo à primeira.

O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Anos depois ainda e sempre essa aventura.



Por querer apanhar os insectos, apanhar tornara-se dominante, coisa em mim tão pouco natural (aquisição tardia), apanhar cujo oposto é "recolher-se", não se enriquecer com, manter-se reservado.


Por fim, APANHAR não era senão dinamismo, um apanhar abstracto, a isso se tendia.


Por falta do principal

apanhar desordenadamente, de modo exagerado,


Aturdir-me com isso


Fazer-me insecto para melhor apanhar

com patas de gancho para apanhar melhor

insecto, aracnídeo, miriápode, acarídeo

se preciso for, para apanhar melhor.


Voltar a encontrar a dança original dos seres para além da forma

e dé todo o tecido conjuntivo de que está atafulhada, para além

deste imóvel empacotamento que é a pele dos seres.


A linha não é um resumo de volume ou de superficie,

é um resumo de cem gestos e atitudes e impressões

e emoções.


Voltar a encontrar um todo em simultáneo.

Um resumo dinâmico feito de lanças, não de formas.



Por fim edificadas

por fim à imagem da nossa desmesurada medida

dominando vertiginosamente metrópoles e aldeias

unidos, nós e elas, apesar da sua massa e dureza

como irmãos gémeos colados pela boca

pela raiva, pelos rins, pelo ânus

pela abjecção comum impossível de esquecer

por tudo o que é falhado implacavelmente desde o princípio


pela desgraça de posição

por toda a velha cola reumatismal

pela nova instalação que fere mais

ainda mais deformadora

pela todavia inextinguível tendência para sublimar


catedrais

monstruosamente escoradas ao rosto do céu

nossas catedrais

quando vos veremos nós?



Henri Michaux

O retiro pelo risco. Antologia poética





EL MAR


Lo que percibo, lo que me pertenece, es el mar indefinido.

A los veintiún años huí de la vida de las ciudades, me lancé a la aventura, fui marinero. A bordo había muchísimo trabajo. Me quedé atónito. Yo pensaba que, en un barco, uno contemplaba el mar, que contemplábamos el mar interminablemente.

Los barcos fueron después desarmados. Así comenzaba el desempleo de los hombres del mar.

Di la espalda a todo aquello y me marché sin decir palabra; llevaba el mar dentro de mí, el mar eternamente a mi alrededor.

Pero ¿qué mar? Eso fue precisamente lo que después me vi incapaz de explicar.



A LA ESPERA


Un ser loco,

un ser faro,

un ser mil veces suprimido,

un ser desterrado del fondo del horizonte,

un ser que grita desde el fondo del horizonte,

un ser enjuto,

un ser íntegro,

un ser altivo,

un ser que querría llegar a ser,

un ser en el latido de dos épocas que chocan entre sí,

un ser entre los gases venenosos de las conciencias que sucumben,

un ser como en el primer día,

un ser...



UN CIERTO FENÓMENO LLAMADO MÚSICA


(...)

La música, operación del devenir, la más saludable de las operaciones humanas. La música sustituye a los seres: a la madre, a la mujer, al niño, a los amigos, en aquello que tienen de maravilloso, pero de quienes tan a menudo querríamos, sin siquiera advertirlo, mediante una maravillosa sustracción de todo cuanto incomoda, conservar únicamente aquello que los expresa, para volverlos tan inofensivos como las oleadas de deleite que llegan a provocar náusea. La música, eje profundo, eje arcaico que sostiene los ejes múltiples. Un eje, se diría, anterior a la ambivalencia.



LECTURA


Los libros son tediosos de leer. En ellos no existe la libre circulación. Se nos invita a seguir un camino. El recorrido está trazado, y es único.

Muy distinto es el cuadro: inmediato, total. A la izquierda, también a la derecha, en profundidad, sin trabas.

En él no hay un solo itinerario, sino mil; y las pausas no vienen señaladas. En cuanto uno lo desea, el cuadro entero reaparece, íntegro. En un instante está allí todo. Todo, pero aún nada es conocido. Es aquí donde debe comenzar la LECTURA.



OBSERVACIONES


Escribo para recorrerme. Pintar, componer, escribir: recorrerme. En eso reside la aventura de estar vivo.

¿Te gusta alguien, lo admiras? Procura, antes que nada, producir en ti aquello mismo que tan extraordinario te parece en el otro.

Me pregunto qué lengua me gustaría oír en mi lecho de muerte, suponiendo que tenga una cama y algún recogimiento. Pero ni pensarlo. Apuesto a que será una hora más de fracaso.

¿Sincero? Escribo para que aquello que era verdad deje de serlo. Una prisión mostrada ya no es una prisión.

Conozco tan poco mi rostro que, si me mostraran otro del mismo género, sería incapaz de advertir la diferencia (salvo, quizá, desde que empecé a hacer estudios de rostros).

(...) Las artes siguen complaciéndose demasiado en sus servidumbres.



LÍNEAS


Sobre unas líneas trazadas sin propósito sobre el papel;

sobre unas páginas rayadas.


Ennoblecida por un trazo de tinta,

una línea fina,

una línea donde ya nada hiede.


No para explicar,

no para exponer,

no en terrazas,

no monumentalmente.


Sino más bien del mismo modo que en el mundo hay anfractuosidades,

sinuosidades,

del mismo modo que hay perros vagabundos,

una línea,

una línea,

más o menos una línea...


En fragmentos,

en sus primeros gérmenes,

sorprendida de improviso,

una línea,

una línea,

una línea...

una legión de líneas.


Pececillo de las aguas nuevas de un sentimiento que despunta,

que habla,

que ríe,

que se arrebata

o que, a veces, se pone a apuñalar.


Escapadas de las prisiones recibidas en herencia;

venidas no para definir,

sino para indefinir,

para pasar el rastrillo por encima,

para volver a escapar de la escuela;

líneas,

aquí y allá,

líneas,


que descienden,

zigzaguean,

se sumergen,

soñadoramente,

distraídamente,

múltiplemente...

en deseos que se desperezan,

que liberan.



Conserva intacta tu debilidad. No procures adquirir fuerzas, sobre todo de esas que no son para ti, que no te están destinadas, de las que la naturaleza te preservaba, preparándote para otra cosa.

Llega hasta el final de tus errores, al menos de algunos de ellos, para observar muy bien de qué clase son. De lo contrario, si te detienes a mitad de camino, avanzarás siempre a ciegas, reincidiendo en la misma clase de errores desde el principio hasta el fin de tu vida, realizando aquello que algunos llamarán tu «destino». Obliga al enemigo, que es tu propia estructura, a descubrirse. Si no has podido torcer tu destino, no habrás sido más que un apartamento de alquiler.




Lo que yo veo es, sobre todo, su movimiento. Soy de quienes aman el movimiento; el movimiento que rompe la inercia, que enreda las líneas, deshace las alineaciones, me libra de las construcciones. El movimiento como desobediencia, como una nueva disposición.

Una vez más puedo ser espontáneo, enteramente espontáneo, sin correcciones, sin segunda versión, sin tener que volver atrás, sin hacer retoques. Desde el primer trazo.

El trazo como una bofetada que vuelve inútiles las explicaciones. Pintura para el azar, para que perdure la aventura de lo incierto, de lo inesperado. Años después, sigue siendo siempre esa aventura.




Por querer atrapar los insectos, atrapar se había convertido en lo dominante, en algo tan poco natural en mí (una adquisición tardía); atrapar, cuyo opuesto es «recogerse», no enriquecerse con nada, mantenerse reservado.

Al fin y al cabo, ATRAPAR no era sino dinamismo, un atrapar abstracto; hacia eso se tendía.

Por carecer de lo principal,

atrapar desordenadamente,

de manera exagerada,

aturdirme con ello,

hacerme insecto para atrapar mejor,

con patas de garfio para atrapar mejor,

insecto,

arácnido,

miriápodo,

ácaro,

si fuera preciso,

para atrapar mejor.


Volver a encontrar la danza original de los seres más allá de la forma

y de todo el tejido conjuntivo del que están atiborrados,

más allá

de este inmóvil embalaje que es la piel de los seres.


La línea no es un resumen del volumen ni de la superficie;

es un resumen de cien gestos,

de cien actitudes,

de cien impresiones

y emociones.


Volver a encontrar un todo simultáneo.

Un resumen dinámico hecho de lanzas,

no de formas.



CATEDRALES


Por fin edificadas,

por fin a imagen de nuestra desmesurada medida,

dominando vertiginosamente metrópolis y aldeas,

unidos, nosotros y ellas,

a pesar de su masa y de su dureza,

como hermanos gemelos pegados por la boca,

por la rabia,

por los riñones,

por el ano,

por la común abyección imposible de olvidar,

por todo cuanto ha fracasado implacablemente desde el principio,


por la desgracia de nuestra condición,

por toda la vieja cola reumática,

por la nueva implantación, que hiere más,

todavía más deformadora,

por la, sin embargo, inextinguible tendencia a sublimar,


catedrales,

monstruosamente apuntaladas contra el rostro del cielo,

nuestras catedrales,

¿cuándo os veremos?



Henri Michaux

El retiro por el riesgo. Antología poética

8.12.18

La anatomía de las plantas, 1680. Nehemiah Grew


Según dicen, en la mayoría de las personas que miran un paisaje se forma una cápsula. Esa cápsula no es tan pequeña como se cree.
La cápsula es el médium entre el paisaje y el contemplador. Si el contemplador pudiera arrancar esa cápsula y llevársela sería inconmensurablemente feliz, conquistaría el paraíso en la tierra.
Pero hace falta una delicadeza extrema, una fuerza prodigiosa y saber lo que se está haciendo. Es como arrancar un árbol de golpe con todas sus raíces. Los pícaros que usan un poco al azar medios mnemotécnicos, representaciones gráficas, comparaciones, análisis y brutalidades sobre la materia observada no solamente no saben de qué estoy hablando, sino que no pueden en absoluto darse cuenta de la sencillez maravillosa y casi infantil de esa operación que simplemente lleva al umbral del éxtasis.

Henri Michaux

28.10.15

 Bildgewaltig. Afrika, Ozeanien und die Moderne. Fondation Beyeler. Christoph Merian Verlag


Toda la historia moderna de la pintura, su esfuerzo por desembarazarse del ilusionismo y por adquirir sus propias dimensiones tienen una significación metafísica.

"Yo pienso que Cézanne ha buscado la profundidad toda su vida", dice Giacometti, y Robert Delaunay: "La profundidad es la inspiración nueva". Cuatro siglos después de las "soluciones" del Renacimiento y tres siglos después de Descartes, la profundidad sigue siendo nueva, y exige que se la busque no "una vez en la vida", sino toda una vida. No puede tratarse del intervalo sin misterio que vería yo de un avión entre estos árboles próximos y aquellos lejanos. Ni tampoco del escamoteo de unas cosas por otras que me representa vivamente un dibujo en perspectiva: estas dos vistas son muy explícitas y no plantean ninguna cuestión. Lo que constituye un enigma es su vínculo, es lo que está entre ellas: que yo vea las cosas cada una en su sitio precisamente porque se eclipsan la una a la otra, que sean rivales ante mi mirada precisamente porque están cada una en su sitio. Es su exterioridad conocida en su envolvimiento y su dependencia mutua en su autonomía. De la profundidad así comprendida no se puede ya decir que es "tercera dimensión". En primer lugar, si fuera dimensión, sería más bien la primera: no hay formas, no hay planos definidos más que si se estipula a qué distancia de mí se encuentran sus diferentes partes. Pero una dimensión primera y que contiene las otras no es una dimensión, al menos en el sentido ordinario de una cierta relación según la cual se mide. La profundidad así comprendida es más bien la experiencia de la reversibilidad de las dimensiones; de una "localidad" global donde todo es a la vez, cuyas altura, anchura y distancia son abstractas; de una voluminosidad que se expresa con una palabra diciendo que una cosa está ahí. Cuando Cézanne busca la profundidad, es esa deflagración del Ser lo que busca, y ella está en todos los modos del espacio, también en la forma. Cézanne ya sabe lo que repetirá el cubismo: que la forma externa, la envoltura, es segunda, derivada, que no es aquello que hace que una cosa tome forma, que es preciso quebrar esa cáscara de espacio, romper el frutero...

Ya no es solamente el problema de la distancia, de la línea y de la forma, es también el problema del color.
El color es "el sitio donde nuestro cerebro y el universo se juntan", dice en ese admirable lenguaje de artesano del Ser que Klee gustaba de citar. Es en beneficio del color por lo que hay que hacer quebrantarse la forma-espectáculo. No se trata pues de colores, "simulacro de los colores de la naturaleza", se trata de la dimensión del color, aquella que crea por sí misma para sí misma identidades, diferencias, una textura, una materialidad, un algo... Sin embargo, no hay desde luego receta de lo visible, y el simple color no la es, como tampoco el espacio. El retorno al color tiene el mérito de llevar un poco más cerca del "corazón de las cosas": pero este está más allá del color-envoltorio como lo está del espacio-envoltorio.

La visión del pintor no es ya mirada sobre un fuera, relación "físico-óptica" solamente con el mundo. El mundo ya no está ante él por representación: es más bien el pintor el que nace en las cosas como por concentración y venida a sí de lo visible, y el cuadro finalmente no se relaciona como cualquiera de entre las cosas empíricas más que a condición de ser en primer lugar "autofigurativo"; no es espectáculo de una cosa más que siendo "espectáculo de ninguna", hendiendo la "piel de las cosas" para mostrar cómo las cosas se hacen cosas y el mundo, mundo. Apollinaire decía que hay en un poema frases que no parecen haber sido creadas, que parecen haberse formado. Y Henri Michaux, que a veces los colores de Klee parecen haber nacido lentamente sobre el lienzo, emanados de un fondo primordial, "exhalados en el sitio oportuno" como una pátina o un moho. El arte no es construcción, artificio, relación industriosa con un espacio o un mundo de fuera. Es en verdad el "grito inarticulado" del que habla Hermes Trimegisto, "que semejaba la voz de la luz". Y, una vez que está ahí, el arte despierta en la visión ordinaria de las potencias durmientes un secreto de preexistencia. Cuando veo a través del espesor del agua el enlosado del fondo de la piscina, no lo veo a pesar del agua y de los reflejos, sino que lo veo justamente a través de ellos y por ellos. Si no hubiera esas distorsiones, esos rayados del sol, si yo viera sin esa carne la geometría del enlosado, dejaría entonces de verlo como es, donde es, a saber: más lejos de todo lugar idéntico. El agua misma, la potencia acuosa, el elemento viscoso y reflectante, no puede ser que esté en el espacio; el agua no está en otra parte, pero no está en la piscina. La habitación se materializa en ella, pero no está contenida en ella, y si elevo los ojos hacia la pantalla de cipreses donde juega la red de reflejos, no puedo negar que el agua también la visita, o que al menos envía ahí su esencia activa y viviente. Es esa animación interna, esa irradiación de lo visible lo que el pintor busca bajo los nombres de profundidad, de espacio, de color.

El esfuerzo de la pintura moderna no ha consistido tanto en elegir entre la línea y el color, o incluso entre la figuración de las cosas y la creación de los signos, como en multiplicar los sistemas de equivalencias, en romper su adherencia a la envoltura de las cosas, lo cual puede exigir que se creen nuevos materiales o nuevos medios de expresión, pero que se hace a veces mediante el nuevo examen e investidura de los materiales ya existentes.




Leonardo da Vinci hablaba en su Tratado de la pintura de "descubrir en cada objeto(...) la manera particular en la que se dirige a través de toda extensión (...) una cierta línea flexuosa que es como su eje generador". Ravaisson y Bergson sintieron ahí algo de importancia sin atreverse a descifrar hasta el final el oráculo. Bergson no busca apenas el "serpenteo individual" más que en los seres vivos, y solo con bastante timidez declara que la línea ondulante "puede no ser ninguna de las líneas visibles de la figura", que "ella no está más aquí que allí" y no obstante "da la clave de todo". Es en el umbral de este descubrimiento cautivador, ya familiar a los pintores, en el que no hay líneas visibles en sí, en el que ni el contorno de la manzana ni el límite del campo y de la pradera están aquí o allí, pues están siempre más acá o más allá del punto desde el que se mira, siempre entre o detrás de aquello que es fijado: indicados, implicados, e incluso muy imperiosamente exigidos por las cosas, pero sin ser cosas ellos mismos. Se suponía que circunscribían la manzana o la pradera, pero la manzana o la pradera "se forman" por sí mismas y descienden en lo visible como venidas de un trasmundo preespacial...
Pues en lo sucesivo, en palabras de Klee, la línea ya no imita lo visible, ella "hace visible", es el alzado de una génesis de las cosas. Acaso nunca antes de Klee se había "dejado soñar una línea".

Figurativa o no, la línea en todo caso no es ya imitación de las cosas ni es cosa. Es un cierto desequilibrio dispuesto en la indiferencia del papel en blanco, es una cierta horadación practicada en el en sí, un cierto vacío constituyente, que, como muestran perentoriamente las estatuas de Moore, gesta la pretendida posividad de las cosas. La línea no es ya, como en la geometría clásica, la aparición de un ser sobre el vacío del fondo; la línea es, como en las geometrías modernas, restricción, segregación, modulación de una espacialidad previa.
Como ha creado la línea latente, la pintura se ha dado un movimiento sin desplazamiento, por vibración o irradiación.

Es aquí donde la famosa observación de Rodin adquiere importancia: las vistas instantáneas, las actitudes inestables petrifican el movimiento, como muestran tantas fotografías en las que el atleta queda petrificado para siempre.
Lo que da el movimiento, dice Rodin, es una imagen en la que los brazos, las piernas, el tronco y la cabeza son tomados cada uno en un instante distinto; una imagen, por tanto, que figura el cuerpo en una actitud que no ha tenido en ningún momento, y que impone entre las partes de aquel ajustes ficticios, como si esta confrontación de incomposibles pudiera, y fuera la única que pudiera, hacer brotar en el bronce y sobre el lienzo la transición y la duración.
En realidad, el tiempo no se detiene. La fotografía mantiene abiertos los instantes que el empuje del tiempo vuelve a cerrar en seguida, destruye el rebasamiento, la invasión, la "metamorfosis" del tiempo que la pintura en cambio hace visibles, puesto que los caballos tienen en sí mismos el "marcharse de aquí, ir allá", porque tienen un pie en cada instante. La pintura no busca el exterior del movimiento, sino sus cifras secretas. Las hay más sutiles de aquellas de las que habla Rodin: toda carne, e incluso la del mundo, irradia fuera de sí misma. Pero ya sea que, según las épocas y según las escuelas, se tenga más apego por el movimiento manifiesto o por el monumental, la pintura nunca está del todo fuera del tiempo, puesto que está siempre en lo carnal.




Hay que tomar al pie de la letra lo que la visión nos enseña: que por ella tocamos el sol, las estrellas, que estamos al mismo tiempo en todas partes, tan cerca de las lejanías como de las cosas próximas, y que incluso nuestro poder de imaginarnos en otra parte -"Estoy en San Petersburgo en mi cama, en Paría, mis ojos ven el sol"- (Delaunay), de dirigir la vista libremente, estén donde estén, a seres reales, es todavía un préstamo de la visión, emplea medios que le debemos a ella. Solo ella nos enseña que seres diferentes, "exteriores", extraños el uno al otro, están no obstante absolutamente juntos, la "simultaneidad": misterio que los psicólogos manejan como un niño manipula explosivos. Robert Delaunay dice brevemente: "El ferrocarril es la imagen de lo sucesivo que se acerca a lo paralelo: la paridad de los raíles".

Esto quiere decir, finalmente, que lo propio de lo visible es tener un doble invisible en sentido estricto, al que lo visible hace presente como una cierta ausencia. "En su época, nuestros antípodas de ayer, los impresionistas, tenían toda la razón en establecer su morada entre los renuevos y las marañas del espectáculo cotidiano. En cuanto a nosotros, nuestro corazón late por conducirnos hacia las profundidades (...) Esas extrañezas se convertirán en (...) realidades (...) Porque en lugar de limitarse a la restitución, con diversa intensidad, de lo visible, anexan a este todavía la parte de lo invisible percibida ocultamente". (Klee)

He aquí por qué el dilema de la figuración y de la no-figuración está mal planteado: es a la vez verdad y no encierra contradicción el que no ha habido nunca uvas que fueran lo que son en la pintura más figurativa, y el que ninguna pintura, incluso abstracta, puede eludir el Ser, que las uvas de Caravaggio son las uvas mismas. Esta precisión de lo que es respecto de lo que se ve y hace ver, y de lo que se ve y hace ver respecto de lo que es, es la visión misma. Y para dar la fórmula ontológica de la pintura, apenas hace falta forzar las palabras del intor, porque Klee escribió a los treinta y siete años estas palabras que fueron grabadas sobre su tumba: "Soy inaprensible en la inmanencia...".

Puesto que profundidad, color, forma, línea, movimiento, contorno y fisonomía son ramas del Ser, y dado que cada una de ellas puede traer consigo el manojo entero, no hay en pintura "problemas" separados, ni caminos verdaderamente opuestos, ni "soluciones" parciales, ni progresos por acumulación, ni opciones sin vuelta atrás. Nunca está excluido que el pintor retome uno de los emblemas que había descartado, claro está que haciéndolo hablar de otro modo: los contornos de Rouault no son los contornos de Ingres. La luz -"vieja sultana", dice Georges Limbour, "cuyos encantos se marchitaron a comienzos de este siglo"-, desechada primero por los pintores de la materia, reaparece por fin en Dubuffet como una cierta textura de la materia. Nunca se está al abrigo de estos retornos.

Pues si ni en pintura ni siquiera en otro sitio podemos establecer una jerarquía de las civilizaciones ni hablar de progreso, no es porque algún destino nos retenga a la zaga, es más bien porque en un sentido la primera de las pinturas iba hasta el fondo del porvenir. Si ninguna pintura acaba la pintura, si incluso ninguna obra se acaba absolutamente, cada creación cambia, altera, ilumina, profundiza, confirma, exalta, recrea o crea por anticipado todas las demás. Si las creaciones no son algo adquirido, no es solo porque, como todas las cosas, ellas pasan, es también porque tienen casi toda su vida por delante.

Le Tholonet, julio-agosto de 1960

Maurice Merleau-Ponty
El ojo y el espíritu

17.3.14


Confusion des Nerfs, 1956. Henri Michaux


En el 67 hubo una exposición de pinturas de Michaux, y en ese momento apareció un texto de Jean Grenier sobre esas pinturas. Y el título del texto de Jean Grenier, que es un texto muy corto que no dice gran cosa, es Un abismo ordenado. No me interesa nada más que la expresión. De cierta manera, una pintura que no comprende su propio abismo, que no comprende un abismo, que no pasa por un abismo, que no instaura en la tela un abismo, no es una pintura.

Gilles Deleuze
Pintura. El concepto de diagrama.

6.1.14


Relieve de una Hora, siglo I a.C. Museo Nacional de Atenas. Las Horas, como las Musas, son encarnaciones del paso del tiempo; atizadas por un viento imaginario, parecen haber surgido en exclusiva del elemento aire.

Jaime Repollés
Genealogías del arte contemporáneo.


Bajo él, bajo algo más delgado que un hilo
Bajo la noche
La noche.

Como una campana que anuncia una desgracia, una nota, una nota que sólo se escucha a sí misma, una nota a través de todo, una nota baja como una patada en el vientre, una nota añosa, una nota como un minuto que tuviera que taladrar un siglo, una nota sostenida a través de la discordancia de las voces, una nota como una advertencia de muerte, una nota me avisa durante toda esa hora.
En mi música, hay mucho silencio.
Hay sobre todo silencio.

El niño nace con veintidós pliegues. Hay que desplegarlos. La vida del hombre entonces se completa. Muere bajo esa forma. Ya no le queda ningún pliegue por deshacer.
Un hombre rara vez muere sin tener que deshacer algún pliegue. Pero ha ocurrido. Paralelamente a esta operación, el hombre forma un núcleo. Las razas inferiores, como la raza blanca, ven mejor el núcleo que el desplegado. El mago ve más bien el desplegado.
Sólo el desplegado es importante. El resto es epifenómeno.

Henri Michaux
Poemas escogidos

Serie Ánima, 2013. Ernesto García.


A menudo los árboles tiemblan. Recogemos las hojas. Tienen una cantidad enorme de nervaduras. ¿Para qué? Ya no hay nada más entre ellas y el árbol, y nos dispersamos, molestas.
¿No podría proseguir la vida en la tierra sin viento? ¿O es que todo tiene que temblar siempre, siempre?
También hay movimientos subterráneos, y en la casa una especie de cólera que aparece delante de tí, como seres adustos que quisieran arrancar confesiones.
No se ve nada, excepto lo que importa bien poco ver. Nada, y sin embargo temblamos. ¿Por qué?

Henri Michaux
Le escribo desde un país lejano.


Cuando la puerta se acuerda
cuando la mesa se acuerda
cuando la silla el armario el aparador la ventana
                                                     se acuerdan
cuando se acuerdan intensamente
de sus raíces
de sus savias
de sus hojas
de sus ramas
de todo lo que en ellos habitaba
de los nidos y las canciones
de las ardillas y los monos
de la nieve y el viento
- un escalofrío recorre la casa
que vuelve a ser bosque.

Hamid Tibouchi
Extracto de Un árbol solo, 1951.


Bosque
Dentro del simbolismo general del paisaje, el bosque ocupa un lugar muy caracterizado, apareciendo con gran frecuencia en mitos, leyendas y cuentos folklóricos. Su complejidad, como la de otros símbolos, redunda en los diversos planos de significado, que parecen todos ellos corresponder al principio materno y femenino. Como lugar donde florece abundante la vida vegetal, no dominada ni cultivada, y que oculta la luz del sol, resulta potencia contrapuesta a la de éste y símbolo de la tierra. La selva fue dada como esposa del sol por los druidas. Dada la asimilación del principio femenino y el inconsciente, obvio es que el bosque tiene un sentido correlativo. Por ello, puede afirmar Jung que los terrores del bosque, tan frecuentes en los cuentos infantiles, simbolizan el aspecto peligroso del inconsciente, es decir, su naturaleza devoradora y ocultante (de la razón). Zimmer señala que, por contraste a las zonas seguras de la ciudad, la casa y el campo de cultivo, el bosque contiene toda suerte de peligros y demonios, de enemigos y enfermedades, lo cual explica que los bosques fueran los primeros lugares consagrados al culto de los dioses, suspendiéndose en los árboles las ofrendas (estaca de sacrificio).

Juan Eduardo Cirlot
Diccionario de símbolos

26.4.12


Caligrafía china.


Ideogramas en China.

Trazos en todas las direcciones. En todos los sentidos comas, bucles, ganchos, acentos, al parecer, a cualquier altura, a cualquier nivel; desconcertantes matorrales de acentos.

Arañazos, quiebras, inicios que parecen haber sido detenidos de repente.

Sin cuerpos, sin formas, sin rostros, sin contornos, sin simetría, sin un centro, sin recordar nada conocido.
Sin regla aparente de simplificación, de unificación, de generalización.
Ni sobrios, ni depurados, ni despojados.
Cada cual como diseminado,
así es el primer acceso.

Ideogramas sin evocación.

Caracteres variados interminables.
La página que los contiene: un vacío lacerado.
Lacerado por múltiples vidas indefinidas.

Hubo, sin embargo, una época en la que los signos aún hablaban, o casi, alusivos ya, señalando más que cosas, cuerpos o materias, señalando grupos, conjuntos, exponiendo situaciones.

Hubo una época. Hubo otras. Sin tratar de simplificar ni abreviar, cada una empeñada en la tarea de despistar por su cuenta, se puso, borrando las pistas, a manipular los caracteres de tal modo que los alejaba una vez más de manera distinta de la legibilidad primitiva.


Tránsito.

(...)
Abstraerse había vencido.

Con los reducidos, lo deformes que son, esos caracteres ilegibles para cientos de chinos no eran, sin embargo, para ellos, letra muerta. Mantenidos fuera del círculo de los letrados, los campesinos, ciertamente, los miraban sin comprenderlos, pero no sin sentir que les pertenecían a pesar de todo, estos signos ligeros, parientes de los techos curvos, de los dragones y los personajes de teatro; de los dibujos y las nubes también, y generalmente de los paisajes con ramas florecidas y hojas de bambú que habían visto en imágenes y que apreciaban.

(...)
Bajo esta luz, cualquier página escrita, cualquier superficie cubierta de caracteres se volvía hormigueante y rebosante... llena de cosas, de vidas, de todo lo que hay en el mundo... en el mundo de China

llena de lunas, llena de corazones, llena de puertas
llena de hombres que se inclinan
que se retiran, que se guardan rencor, que hacen las
paces
llena de obstáculos
llena de manos derecha, de manos izquierda
de manos que se aprietan, que se responden, que
se enlazan para siempre
llena de manos frente a frente,
de manos en guardia, de manos ocupadas
llena de mañanas
llena de puertas
llena de agua cayendo gota a gota de las nubes
llena de barcazas que atraviesan de una orilla a otra
llena de alzamientos de tierra
llena de crisoles
y de arcos y de fugitivos
y llena de calamidades
y llena de ladrones llevándose bajo el brazo los
objetos robados
y llena de codicias
y llena de mallas
y llena también de palabras sinceras
y llena de reuniones
y llena de niños nacidos de pie
y llena de agujeros en la tierra
y de ombligos en el cuerpo
y llena de cráneos
y llena de fosas
y llena de aves de paso,
y llena de recién nacidos -¡cuántos recién nacidos!-
y llena de metales en las profundidades del suelo
y llena de tierras vírgenes
y de vapores que suben de los herbazales y de los
pantanos
y llena de dragones
llena de demonios vagando por los campos
y llena de todo lo que existe en el universo
tal cual o diferentemente ensamblado
elegido a propósito por el inventor de signos para
estar juntos
escenas para dar qué pensar
escenas de todo tipo
escenas para ofrecer un sentido, para ofrecer varios,
para proponérselos a la mente
para dejarlos emanar
grupos para que resulten ideas
o para que se resuelvan en poesía.

(...)
Durante mucho tiempo, los chinos habían, como en otros ámbitos, sucumbido al encanto del parecido: primero del próximo, luego del lejano parecido, después, de la composición con elementos parecidos.

Barrera también. Fue necesario saltarla.

(...)
Abstraerse es liberarse, desatascarse.
El destino de los chinos en la escritura era la absoluta ingravidez.

(...)
Asimismo el calígrafo debe recogerse primero, cargarse de energía para liberarse de ella después, descargarse de ella. De un golpe.

(...)
... En cierto modo semejante al agua, a lo que tiene de más fuerte y de más ligero, de menos perceptible, como lo son las arrugas, que siempre fueron tema de estudio en China.

Arrugas profundas, arrugas finas, arrugas del agua que corre o cae en cascada y que vuelve a salir gorgoteando a la superficie. Algunos pintores se han hecho célebres por sus arrugas de agua, y el mismo admirable Wang Wei lo es por haber hallado la arruga "de la lluvia y de la nieve".

(...)
De lo múltiple sale la idea.

Caracteres abiertos en varias direcciones.

Equilibrio.

(...)
Sólo importa la "justa proporción", el "justo lugar".

Y la página perfecta es aquella que "parece haber sido trazada de un solo trazo".

(...)
China, país en el que se meditaba en los trazados de un calígrafo de la misma manera que en otro se meditaba en un mantra, en la substancia, el principio, o en la Esencia.

Caligrafía cerca de la cual, sencillamente, se está cerca como de un árbol, de una roca, de una fuente.

Henri Michaux
Escritos sobre pintura



14.3.11


Fragmento de partitura de Piel sonora. Juan José Eslava



Los gestos, las actitudes, el movimiento, las acciones, eran lo que me impulsaba y lo que me incitaba a reproducirlos. Pero de otro modo que en las lenguas anteriores a la escritura, en las que, tal vez por razones de comodidad, los ideogramas y pictogramas son generalmente estáticos, su contenido, su manera es estática, de forma que cualquiera puede copiarlos sin dificultad, en cualquier momento, sin necesidad de una inspiración especial.

Más particularmente, lo que perseguía no era el movimiento tal y como se ve en la fotografía, sino el movimiento inicial, esencial, básico, como lo percibiríamos con los ojos vendados.

¿Quién, en pintura, dió alguna vez una bofetada?, ¿un golpe? (¿un puñetazo o una lanzada o un bastonazo?)


Henri Michaux
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21.11.10


Jean Dubuffet, 1954




Paisajes apacibles o desolados
Paisajes de la carretera de la vida más que de la superficie de la Tierra
Paisajes del Tiempo que corre lentamente, casi inmóvil y a veces como retrasado
Paisajes de los jirones, de los nervios lacerados, de las "saudades"
Paisajes para cubrir las llagas, el acero, la esquirla, el mal, la época, la cuerda al cuello, la movilización.
Paisajes para abolir los gritos
Paisajes como quien se pone una sábana sobre la cara.


Henri Michaux
Escritos sobre pintura
En un instante, todo está ahí.
Henri Michaux
Lectura, 1950

11.9.09

Hubo sin embargo figuras yacentes, playas enteras de
figuras yacentes. Como se tienden una vez muertas...


Sin duda un desembarco las dejó allí, decenas y decenas
sobre la arena. Aún por retirar, siempre presentes.

Henri Michaux
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