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Suíte e Fuga
letra a letra, o som de uma arcaica máquina de morte. Som quase íntimo: constrói um involucro, o vazio que há nele. Não conseguiremos emendar a sua transparência. Respiramo-la:
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e as palavras surgem,
peças minúsculas, umas ao lado das outras,
coesas até à imprecação.
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Como escrevia Heraclito? onde? nas margens de que rio? nas praias de que mar? no alpendre de que casa? na sombra de que parreira? de que pinheiro? ou não escrevia? falava ao ouvido do adolescente sentado na caruma, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo e as formigas lhe subiam pelo branco da túnica?
Por momentos, Heraclito calava-se.
Hoje, perguntamo-nos o que é, o que era, esse silêncio.
E enchemo-lo de palavras.
O adolescente, porém, só ouvia o zumbido das vespas e o movimento da mão a afugentar uma mosca.
(O Ilissos, muito mais tarde. Um outro início?
Numa sala qualquer, num anfiteatro, as palavras, como as moscas, continuam a apoquentar os lábios)
(...)
Há um gesto escondido em algumas palavras, um massacre na estridência deum braço estendido: Heil, Heil, Heil: exasperação da parte mais brutal do corpo.
:
a sombra da mão deixou cair no sulco outra sombra.
Que germinou
2.
subo a escada, degrau a degrau, o meu corpo invade-me, é um desconhecido, ou torna-se. E tem a pobreza de um único nome: pulsação. No patamar, a criança ola-me. O corpo dela está cheio de nomes. É. Todos os nomes.
Anotaçoes
Quem é Heraclito? O que é Heraclito? Onde acaba a palavra de Heraclito e começa outra palavra que, não sendo já a de Heraclito, é o eco que ela deixou? E que relação há entre o eco e o som que o produz? O que há no eco, do som que o produz? Uma vibração?Um rumor? O silêncio específico de uma voz que se cala? Esse silêncio contaminado?
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só a palavra inicial da Criação não tem um silêncio anterior.
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Quantas vozes dissimularam/mostraram Heraclito? Abriram uma fresta pela qual se entrevê um fantasma? Ou toda a leitura, toda a interpretação, mais não é do que a criação de um fantasma? Esse texto puro, frente aos nossos olhos, tão puro que o lemos e relemos, sempre da mesma maneira, ouvindo sempre os mesmos sons, é o "inaccesível". Não conseguiremos percorrer todos os seus meandros, todas as vozes que nele se insinuaram, de um modo tão perverso que nem sequer ofuscam a sua leitura. E, no entanto...
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O que é, quem é Heraclito? Ou: quem é Tolstoi? Proust? Kafka? Celan? Ou Sá de Miranda? Bernardim? Fernão Lopes? Que "rosa de ninguém" é cada texto? Um livro, um só livro, por vezes uma só palavra, irradiam e corroem todos os livros e todas as palavras. De quando em quando, descobrimos essa mancha, está ali, na página, obscurecendo-a, obscurecendo. De onde veio? De que terra incógnita?
Há textos que abrem para enormes vacilações. Disseminantes, inseminantes, rasgam um desvio em cada letra, em cada som, em cada olhar.
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Há textos cujas palavras são a intimidade de um ser livre, textos que não conseguem acabar, porque, momento a momento, se dividem. Nos dividem
(...)
Qualquer escrita: metamorfoses de uma ruina.
(...)
Todas as palavras são um afastamento, não se sabe de quê, não se sabe de quem. Há uns que procuram responder. Mas chega-se sempre a um lugar desabitado, a uma boca fechada.
(...)
Descrever é petrificar.
Tudo o que julgávamos perceber, tudo o que julgávamos oculto, foram estações do nosso desespero. Queríamos encontrar um sentido, e por vezes encontrávamo-lo. Um deus infatigável corria à nossa frente, recomeçava a sua ausência.
Um dia, todas as palavras serão uma definição de teu silêncio.
(...)
Mudo, sentado numa pedra, no alto do monte, Heraclito vê o mar lá em baixo. O barco para Ítaca não voltará a passar. O vento enrola-lhe a túnica à magreza do corpo. Uma gaivota salta de pedra em pedra, escorrega nelas, num desequilíbrio, asas abertas, asas que tenteiam, que dão ao ar a sua inclinação. O alto do monte, ligeiramente abaulado, segue a curvatura do mar.
O que aprendeu este homem?
o relâmpago,
o desenho rapidíssimo da eternidade:
tempo de uma sufocação.
(...)
Regressar a um livro, pela fissura de uma frase, de um erro, pela imperfeição de uma história. Recomeçar. A alegria de uma deriva
:
Sobrevivemos assim, quando nos tornamos personagens de todos os livros que lemos, quando entramos no palácio da duquesa de Guermantes, quando olhamos o nosso corpo transformado numa espécie monstruosa de barata, quando atravessamos, ao lado de Raskolnikov, uma ponte de São Petersburgo, quando nos aproximamos da morte com o terror de Ivan Illich, quando percebemos a linha subtil que separa aquilo que podemos daquilo que não podemos conhecer, quando pressentimos que a dor é intransponível, identifica-nos como uma impressão digital. E nunca poderá ser partilhada. Únicos e absolutamente outros. A dor física, brutal, de um órgão que adoece, que apodrece, a dor não tem partilha nem descrição, é uma sílaba. Uma ilha.
(...)
E Heraclito?
A denúncia de uma ausência.
Todos os dias o texto recomeça:
o início é insaciável,
(...)
A intimidade de um vazio feito de pequenas manchas, de dedadas, de grãos de pó, de pingos de água secos, tudo o que resta do quotidiano de uma vida qualquer, de um espelho, de quem se viu nele?, sinais reflexos de sinais?
Uma história? Todas as histórias? O que sobra dos heróis que não conhecemos? Um vestigio de qué? De quem? A retórica de uma chama?
(...)
Com o tempo, muitas coisas deixaram de ter nome. São as inomináveis. Movem-se livres num esquecimento.
Estar próximo é a grande experiência. Quase. Não é uma antecipação, nada tem que ver com isso. Há o tempo do primeiro relâmpago, da primeira contaminação. O fim antecipa-se, um sinal, a que sicede outro, tão outro, que não se consegue estabelecer uma ligação entre ambos. Tornam-se cada vez mais frequentes, estes sinais. Por fim, não há um único instante em que não surja um. A vida é a vivência dessa proximidade. Apercebemo-nos de que tudo vai resistir: a casa onde nascemos, o quadro que comprámos, a música que ouvimos, o copo por onde bebemos água: imensos lábios estão perdidos nessa transparência, imensos olhos no quadro, imensos mortos na casa. O fim é uma inauguração. De qualquer passado.
[a fluidez do desmantelamento.
[E Heraclito?
Esmiuçado até ao desacordo, absolutamente esquecido, à beira de que praia? no alto de que montanha? nas ruas de que cidade? É o habitante de um mapa. De um ponto no mapa. Éfeso? Uma cara inventada. Não um rosto. Inventada como uma criança desenha um pássaro. Que são todos os pássaros. O pássaro qualquer. Ainda não aprendeu a descer do mundo das ideias. Pouco a pouco, chegará ao pardal, ao pisco, ao estorninho, ao tordo, ao milhafre: é assim a aprendizagem da pequena morte. Que a grande...
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de Heraclito resta "Heraclito" e o enxame de teorias à volta dele. De Heraclito não temos as palavras que aproximam: casa, árvore, rio, montanha, amigo, de Heraclito temos as palavras que afastam.
(...)
São planos inclinados, as mãos
Rui Nunes
Suite y furia
letra por letra, el sonido de una arcaica máquina de muerte. Sonido casi íntimo: construye una envoltura, el vacío que hay en ella. No conseguiremos remendar su transparencia. La respiramos:
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y las palabras surgen,
piezas minúsculas, unas al lado de las otras,
cohesionadas hasta la imprecación.
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¿Cómo escribía Heráclito? ¿dónde? ¿en las orillas de qué río? ¿en las playas de qué mar? ¿en el porche de qué casa? ¿a la sombra de qué parra? ¿de qué pino? ¿o no escribía? ¿hablaba al oído del adolescente sentado sobre la pinocha, mientras le pasaba la mano por el cabello y las hormigas le subían por la blancura de la túnica?
Por momentos, Heráclito callaba.
Hoy nos preguntamos qué es, qué era, ese silencio.
Y lo llenamos de palabras.
El adolescente, sin embargo, solo oía el zumbido de las avispas y el movimiento de la mano que ahuyentaba una mosca.
(El Iliso, mucho más tarde. ¿Otro comienzo?
En cualquier sala, en un anfiteatro, las palabras, como las moscas, siguen importunando los labios)
(...)
Hay un gesto escondido en algunas palabras, una masacre en la estridencia de un brazo extendido: Heil, Heil, Heil: exasperación de la parte más brutal del cuerpo.
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la sombra de la mano dejó caer en el surco otra sombra.
Que germinó
2.
subo la escalera, peldaño a peldaño, mi cuerpo me invade, es un desconocido, o se convierte en uno. Y tiene la pobreza de un único nombre: pulsación. En el rellano, la niña me mira. Su cuerpo está lleno de nombres. Es. Todos los nombres.
Anotaciones
¿Quién es Heráclito? ¿Qué es Heráclito? ¿Dónde acaba la palabra de Heráclito y comienza otra palabra que, sin ser ya la de Heráclito, es el eco que dejó? ¿Y qué relación hay entre el eco y el sonido que lo produce? ¿Qué hay en el eco del sonido que lo produce? ¿Una vibración? ¿Un rumor? ¿El silencio específico de una voz que calla? ¿Ese silencio contaminado?
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solo la palabra inicial de la Creación carece de un silencio anterior.
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¿Cuántas voces han disimulado/mostrado a Heráclito? ¿Han abierto una rendija por la que se entrevé un fantasma? ¿O toda lectura, toda interpretación, no es más que la creación de un fantasma? Ese texto puro, ante nuestros ojos, tan puro que lo leemos y releemos, siempre de la misma manera, oyendo siempre los mismos sonidos, es lo «inaccesible». No conseguiremos recorrer todos sus meandros, todas las voces que en él se insinuaron, de un modo tan perverso que ni siquiera empañan su lectura. Y, sin embargo...
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¿Qué es, quién es Heráclito? O: ¿quién es Tolstói? ¿Proust? ¿Kafka? ¿Celan? ¿O Sá de Miranda? ¿Bernardim? ¿Fernão Lopes? ¿Qué «rosa de nadie» es cada texto? Un libro, un solo libro, a veces una sola palabra, irradian y corroen todos los libros y todas las palabras. De vez en cuando, descubrimos esa mancha, está ahí, en la página, oscureciéndola, oscureciendo. ¿De dónde vino? ¿De qué tierra incógnita?
Hay textos que se abren a enormes vacilaciones. Diseminadores, inseminadores, abren una desviación en cada letra, en cada sonido, en cada mirada.
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Hay textos cuyas palabras son la intimidad de un ser libre, textos que no consiguen terminar, porque, momento a momento, se dividen. Nos dividen.
(...)
Cualquier escritura: metamorfosis de una ruina.
(...)
Todas las palabras son un alejamiento, no se sabe de qué, no se sabe de quién. Hay quienes intentan responder. Pero siempre se llega a un lugar deshabitado, a una boca cerrada.
(...)
Describir es petrificar.
Todo lo que creíamos percibir, todo lo que creíamos oculto, fueron estaciones de nuestra desesperación. Queríamos encontrar un sentido, y a veces lo encontrábamos. Un dios infatigable corría delante de nosotros, recomenzaba su ausencia.
Un día, todas las palabras serán una definición de tu silencio.
(...)
Mudo, sentado en una piedra, en lo alto del monte, Heráclito ve el mar allá abajo. El barco hacia Ítaca no volverá a pasar. El viento le enrolla la túnica alrededor de la delgadez del cuerpo. Una gaviota salta de piedra en piedra, resbala sobre ellas, en un desequilibrio, alas abiertas, alas que tantean, que dan al aire su inclinación. La cima del monte, ligeramente abombada, sigue la curvatura del mar.
¿Qué aprendió este hombre?
el relámpago,
el rapidísimo dibujo de la eternidad:
tiempo de una sofocación.
(...)
Regresar a un libro, por la fisura de una frase, de un error, por la imperfección de una historia. Recomenzar. La alegría de una deriva.
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Sobrevivimos así, cuando nos convertimos en personajes de todos los libros que leemos, cuando entramos en el palacio de la duquesa de Guermantes, cuando contemplamos nuestro cuerpo transformado en una especie monstruosa de cucaracha, cuando atravesamos, junto a Raskólnikov, un puente de San Petersburgo, cuando nos acercamos a la muerte con el terror de Iván Ilich, cuando percibimos la línea sutil que separa aquello que podemos conocer de aquello que no podemos conocer, cuando presentimos que el dolor es infranqueable, nos identifica como una huella dactilar. Y nunca podrá compartirse. Únicos y absolutamente otros. El dolor físico, brutal, de un órgano que enferma, que se pudre; el dolor no admite compartirlo ni describirlo, es una sílaba. Una isla.
(...)
¿Y Heráclito?
La denuncia de una ausencia.
Todos los días el texto recomienza:
el comienzo es insaciable,
(...)
La intimidad de un vacío hecho de pequeñas manchas, de huellas dactilares, de granos de polvo, de gotas de agua secas, todo lo que queda de la cotidianidad de una vida cualquiera, de un espejo, ¿de quien se vio en él?, ¿señales reflejas de señales?
¿Una historia? ¿Todas las historias? ¿Qué queda de los héroes que no conocemos? ¿Un vestigio de qué? ¿De quién? ¿La retórica de una llama?
(...)
Con el tiempo, muchas cosas dejaron de tener nombre. Son las innombrables. Se mueven libres en un olvido.
Estar cerca es la gran experiencia. Casi. No es una anticipación, nada tiene que ver con eso. Está el tiempo del primer relámpago, de la primera contaminación. El final se anticipa, una señal, a la que sucede otra, tan otra, que no se consigue establecer una conexión entre ambas. Estas señales se vuelven cada vez más frecuentes. Por fin, no hay un solo instante en que no aparezca una. La vida es la vivencia de esa proximidad. Nos damos cuenta de que todo va a resistir: la casa donde nacimos, el cuadro que compramos, la música que escuchamos, el vaso del que bebemos agua: innumerables labios se han perdido en esa transparencia, innumerables ojos en el cuadro, innumerables muertos en la casa. El final es una inauguración. De cualquier pasado.
[la fluidez del desmantelamiento.
[¿Y Heráclito?
Desmenuzado hasta el desacuerdo, absolutamente olvidado, ¿a orillas de qué playa? ¿en lo alto de qué montaña? ¿por las calles de qué ciudad? Es el habitante de un mapa. De un punto en el mapa. ¿Éfeso? Una cara inventada. No un rostro. Inventada como un niño dibuja un pájaro. Que son todos los pájaros. El pájaro cualquiera. Todavía no ha aprendido a descender del mundo de las ideas. Poco a poco, llegará al gorrión, al petirrojo, al estornino, al zorzal, al milano: así es el aprendizaje de la pequeña muerte. Que la grande...
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de Heráclito queda «Heráclito» y el enjambre de teorías a su alrededor. De Heráclito no tenemos las palabras que acercan: casa, árbol, río, montaña, amigo; de Heráclito tenemos las palabras que alejan.
(...)
Son planos inclinados, las manos.
Rui Nunes




