16.10.26

Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Coimbra





PORT | ESP


Suíte e Fuga



letra a letra, o som de uma arcaica máquina de morte. Som quase íntimo: constrói um involucro, o vazio que há nele. Não conseguiremos emendar a sua transparência. Respiramo-la:

:

e as palavras surgem,

peças minúsculas, umas ao lado das outras,

coesas até à imprecação.

:

Como escrevia Heraclito? onde? nas margens de que rio? nas praias de que mar? no alpendre de que casa? na sombra de que parreira? de que pinheiro? ou não escrevia? falava ao ouvido do adolescente sentado na caruma, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo e as formigas lhe subiam pelo branco da túnica?

Por momentos, Heraclito calava-se.

Hoje, perguntamo-nos o que é, o que era, esse silêncio.

E enchemo-lo de palavras.

O adolescente, porém, só ouvia o zumbido das vespas e o movimento da mão a afugentar uma mosca.


(O Ilissos, muito mais tarde. Um outro início?

Numa sala qualquer, num anfiteatro, as palavras, como as moscas, continuam a apoquentar os lábios)


(...)

Há um gesto escondido em algumas palavras, um massacre na estridência deum braço estendido: Heil, Heil, Heil: exasperação da parte mais brutal do corpo.

:

a sombra da mão deixou cair no sulco outra sombra.

Que germinou


2.

subo a escada, degrau a degrau, o meu corpo invade-me, é um desconhecido, ou torna-se. E tem a pobreza de um único nome: pulsação. No patamar, a criança ola-me. O corpo dela está cheio de nomes. É. Todos os nomes.







Anotaçoes


Quem é Heraclito? O que é Heraclito? Onde acaba a palavra de Heraclito e começa outra palavra que, não sendo já a de Heraclito, é o eco que ela deixou? E que relação há entre o eco e o som que o produz? O que há no eco, do som que o produz? Uma vibração?Um rumor? O silêncio específico de uma voz que se cala? Esse silêncio contaminado?

:

só a palavra inicial da Criação não tem um silêncio anterior.

:

Quantas vozes dissimularam/mostraram Heraclito? Abriram uma fresta pela qual se entrevê um fantasma? Ou toda a leitura, toda a interpretação, mais não é do que a criação de um fantasma? Esse texto puro, frente aos nossos olhos, tão puro que o lemos e relemos, sempre da mesma maneira, ouvindo sempre os mesmos sons, é o "inaccesível". Não conseguiremos percorrer todos os seus meandros, todas as vozes que nele se insinuaram, de um modo tão perverso que nem sequer ofuscam a sua leitura. E, no entanto...

:

O que é, quem é Heraclito? Ou: quem é Tolstoi? Proust? Kafka? Celan? Ou Sá de Miranda? Bernardim? Fernão Lopes? Que "rosa de ninguém" é cada texto? Um livro, um só livro, por vezes uma só palavra, irradiam e corroem todos os livros e todas as palavras. De quando em quando, descobrimos essa mancha, está ali, na página, obscurecendo-a, obscurecendo. De onde veio? De que terra incógnita?



Há textos que abrem para enormes vacilações. Disseminantes, inseminantes, rasgam um desvio em cada letra, em cada som, em cada olhar.

:

Há textos cujas palavras são a intimidade de um ser livre, textos que não conseguem acabar, porque, momento a momento, se dividem. Nos dividem


(...)

Qualquer escrita: metamorfoses de uma ruina.


(...)

Todas as palavras são um afastamento, não se sabe de quê, não se sabe de quem. Há uns que procuram responder. Mas chega-se sempre a um lugar desabitado, a uma boca fechada.


(...)

Descrever é petrificar.


Tudo o que julgávamos perceber, tudo o que julgávamos oculto, foram estações do nosso desespero. Queríamos encontrar um sentido, e por vezes encontrávamo-lo. Um deus infatigável corria à nossa frente, recomeçava a sua ausência.

Um dia, todas as palavras serão uma definição de teu silêncio.


(...)

Mudo, sentado numa pedra, no alto do monte, Heraclito vê o mar lá em baixo. O barco para Ítaca não voltará a passar. O vento enrola-lhe a túnica à magreza do corpo. Uma gaivota salta de pedra em pedra, escorrega nelas, num desequilíbrio, asas abertas, asas que tenteiam, que dão ao ar a sua inclinação. O alto do monte, ligeiramente abaulado, segue a curvatura do mar.

O que aprendeu este homem?

o relâmpago,

o desenho rapidíssimo da eternidade:

tempo de uma sufocação.


(...)

Regressar a um livro, pela fissura de uma frase, de um erro, pela imperfeição de uma história. Recomeçar. A alegria de uma deriva

:

Sobrevivemos assim, quando nos tornamos personagens de todos os livros que lemos, quando entramos no palácio da duquesa de Guermantes, quando olhamos o nosso corpo transformado numa espécie monstruosa de barata, quando atravessamos, ao lado de Raskolnikov, uma ponte de São Petersburgo, quando nos aproximamos da morte com o terror de Ivan Illich, quando percebemos a linha subtil que separa aquilo que podemos daquilo que não podemos conhecer, quando pressentimos que a dor é intransponível, identifica-nos como uma impressão digital. E nunca poderá ser partilhada. Únicos e absolutamente outros. A dor física, brutal, de um órgão que adoece, que apodrece, a dor não tem partilha nem descrição, é uma sílaba. Uma ilha.


(...)

E Heraclito?

A denúncia de uma ausência.


Todos os dias o texto recomeça:

o início é insaciável,


(...)

A intimidade de um vazio feito de pequenas manchas, de dedadas, de grãos de pó, de pingos de água secos, tudo o que resta do quotidiano de uma vida qualquer, de um espelho, de quem se viu nele?, sinais reflexos de sinais?

Uma história? Todas as histórias? O que sobra dos heróis que não conhecemos? Um vestigio de qué? De quem? A retórica de uma chama?


(...)

Com o tempo, muitas coisas deixaram de ter nome. São as inomináveis. Movem-se livres num esquecimento.


Estar próximo é a grande experiência. Quase. Não é uma antecipação, nada tem que ver com isso. Há o tempo do primeiro relâmpago, da primeira contaminação. O fim antecipa-se, um sinal, a que sicede outro, tão outro, que não se consegue estabelecer uma ligação entre ambos. Tornam-se cada vez mais frequentes, estes sinais. Por fim, não há um único instante em que não surja um. A vida é a vivência dessa proximidade. Apercebemo-nos de que tudo vai resistir: a casa onde nascemos, o quadro que comprámos, a música que ouvimos, o copo por onde bebemos água: imensos lábios estão perdidos nessa transparência, imensos olhos no quadro, imensos mortos na casa. O fim é uma inauguração. De qualquer passado.

[a fluidez do desmantelamento.

[E Heraclito?

Esmiuçado até ao desacordo, absolutamente esquecido, à beira de que praia? no alto de que montanha? nas ruas de que cidade? É o habitante de um mapa. De um ponto no mapa. Éfeso? Uma cara inventada. Não um rosto. Inventada como uma criança desenha um pássaro. Que são todos os pássaros. O pássaro qualquer. Ainda não aprendeu a descer do mundo das ideias. Pouco a pouco, chegará ao pardal, ao pisco, ao estorninho, ao tordo, ao milhafre: é assim a aprendizagem da pequena morte. Que a grande...

:

de Heraclito resta "Heraclito" e o enxame de teorias à volta dele. De Heraclito não temos as palavras que aproximam: casa, árvore, rio, montanha, amigo, de Heraclito temos as palavras que afastam.


(...)

São planos inclinados, as mãos


Rui Nunes







Suite y furia



letra por letra, el sonido de una arcaica máquina de muerte. Sonido casi íntimo: construye una envoltura, el vacío que hay en ella. No conseguiremos remendar su transparencia. La respiramos:

:
y las palabras surgen,
piezas minúsculas, unas al lado de las otras,
cohesionadas hasta la imprecación.
:
¿Cómo escribía Heráclito? ¿dónde? ¿en las orillas de qué río? ¿en las playas de qué mar? ¿en el porche de qué casa? ¿a la sombra de qué parra? ¿de qué pino? ¿o no escribía? ¿hablaba al oído del adolescente sentado sobre la pinocha, mientras le pasaba la mano por el cabello y las hormigas le subían por la blancura de la túnica?

Por momentos, Heráclito callaba.

Hoy nos preguntamos qué es, qué era, ese silencio.

Y lo llenamos de palabras.

El adolescente, sin embargo, solo oía el zumbido de las avispas y el movimiento de la mano que ahuyentaba una mosca.

(El Iliso, mucho más tarde. ¿Otro comienzo?

En cualquier sala, en un anfiteatro, las palabras, como las moscas, siguen importunando los labios)

(...)

Hay un gesto escondido en algunas palabras, una masacre en la estridencia de un brazo extendido: Heil, Heil, Heil: exasperación de la parte más brutal del cuerpo.
:
la sombra de la mano dejó caer en el surco otra sombra.
Que germinó

2.

subo la escalera, peldaño a peldaño, mi cuerpo me invade, es un desconocido, o se convierte en uno. Y tiene la pobreza de un único nombre: pulsación. En el rellano, la niña me mira. Su cuerpo está lleno de nombres. Es. Todos los nombres.









Anotaciones


¿Quién es Heráclito? ¿Qué es Heráclito? ¿Dónde acaba la palabra de Heráclito y comienza otra palabra que, sin ser ya la de Heráclito, es el eco que dejó? ¿Y qué relación hay entre el eco y el sonido que lo produce? ¿Qué hay en el eco del sonido que lo produce? ¿Una vibración? ¿Un rumor? ¿El silencio específico de una voz que calla? ¿Ese silencio contaminado?
:
solo la palabra inicial de la Creación carece de un silencio anterior.
:
¿Cuántas voces han disimulado/mostrado a Heráclito? ¿Han abierto una rendija por la que se entrevé un fantasma? ¿O toda lectura, toda interpretación, no es más que la creación de un fantasma? Ese texto puro, ante nuestros ojos, tan puro que lo leemos y releemos, siempre de la misma manera, oyendo siempre los mismos sonidos, es lo «inaccesible». No conseguiremos recorrer todos sus meandros, todas las voces que en él se insinuaron, de un modo tan perverso que ni siquiera empañan su lectura. Y, sin embargo...
:
¿Qué es, quién es Heráclito? O: ¿quién es Tolstói? ¿Proust? ¿Kafka? ¿Celan? ¿O Sá de Miranda? ¿Bernardim? ¿Fernão Lopes? ¿Qué «rosa de nadie» es cada texto? Un libro, un solo libro, a veces una sola palabra, irradian y corroen todos los libros y todas las palabras. De vez en cuando, descubrimos esa mancha, está ahí, en la página, oscureciéndola, oscureciendo. ¿De dónde vino? ¿De qué tierra incógnita?

Hay textos que se abren a enormes vacilaciones. Diseminadores, inseminadores, abren una desviación en cada letra, en cada sonido, en cada mirada.
:
Hay textos cuyas palabras son la intimidad de un ser libre, textos que no consiguen terminar, porque, momento a momento, se dividen. Nos dividen.

(...)

Cualquier escritura: metamorfosis de una ruina.

(...)

Todas las palabras son un alejamiento, no se sabe de qué, no se sabe de quién. Hay quienes intentan responder. Pero siempre se llega a un lugar deshabitado, a una boca cerrada.

(...)

Describir es petrificar.

Todo lo que creíamos percibir, todo lo que creíamos oculto, fueron estaciones de nuestra desesperación. Queríamos encontrar un sentido, y a veces lo encontrábamos. Un dios infatigable corría delante de nosotros, recomenzaba su ausencia.

Un día, todas las palabras serán una definición de tu silencio.

(...)

Mudo, sentado en una piedra, en lo alto del monte, Heráclito ve el mar allá abajo. El barco hacia Ítaca no volverá a pasar. El viento le enrolla la túnica alrededor de la delgadez del cuerpo. Una gaviota salta de piedra en piedra, resbala sobre ellas, en un desequilibrio, alas abiertas, alas que tantean, que dan al aire su inclinación. La cima del monte, ligeramente abombada, sigue la curvatura del mar.

¿Qué aprendió este hombre?

el relámpago,

el rapidísimo dibujo de la eternidad:

tiempo de una sofocación.

(...)

Regresar a un libro, por la fisura de una frase, de un error, por la imperfección de una historia. Recomenzar. La alegría de una deriva.
:
Sobrevivimos así, cuando nos convertimos en personajes de todos los libros que leemos, cuando entramos en el palacio de la duquesa de Guermantes, cuando contemplamos nuestro cuerpo transformado en una especie monstruosa de cucaracha, cuando atravesamos, junto a Raskólnikov, un puente de San Petersburgo, cuando nos acercamos a la muerte con el terror de Iván Ilich, cuando percibimos la línea sutil que separa aquello que podemos conocer de aquello que no podemos conocer, cuando presentimos que el dolor es infranqueable, nos identifica como una huella dactilar. Y nunca podrá compartirse. Únicos y absolutamente otros. El dolor físico, brutal, de un órgano que enferma, que se pudre; el dolor no admite compartirlo ni describirlo, es una sílaba. Una isla.

(...)

¿Y Heráclito?

La denuncia de una ausencia.

Todos los días el texto recomienza:

el comienzo es insaciable,

(...)

La intimidad de un vacío hecho de pequeñas manchas, de huellas dactilares, de granos de polvo, de gotas de agua secas, todo lo que queda de la cotidianidad de una vida cualquiera, de un espejo, ¿de quien se vio en él?, ¿señales reflejas de señales?

¿Una historia? ¿Todas las historias? ¿Qué queda de los héroes que no conocemos? ¿Un vestigio de qué? ¿De quién? ¿La retórica de una llama?

(...)

Con el tiempo, muchas cosas dejaron de tener nombre. Son las innombrables. Se mueven libres en un olvido.

Estar cerca es la gran experiencia. Casi. No es una anticipación, nada tiene que ver con eso. Está el tiempo del primer relámpago, de la primera contaminación. El final se anticipa, una señal, a la que sucede otra, tan otra, que no se consigue establecer una conexión entre ambas. Estas señales se vuelven cada vez más frecuentes. Por fin, no hay un solo instante en que no aparezca una. La vida es la vivencia de esa proximidad. Nos damos cuenta de que todo va a resistir: la casa donde nacimos, el cuadro que compramos, la música que escuchamos, el vaso del que bebemos agua: innumerables labios se han perdido en esa transparencia, innumerables ojos en el cuadro, innumerables muertos en la casa. El final es una inauguración. De cualquier pasado.

[la fluidez del desmantelamiento.

[¿Y Heráclito?

Desmenuzado hasta el desacuerdo, absolutamente olvidado, ¿a orillas de qué playa? ¿en lo alto de qué montaña? ¿por las calles de qué ciudad? Es el habitante de un mapa. De un punto en el mapa. ¿Éfeso? Una cara inventada. No un rostro. Inventada como un niño dibuja un pájaro. Que son todos los pájaros. El pájaro cualquiera. Todavía no ha aprendido a descender del mundo de las ideas. Poco a poco, llegará al gorrión, al petirrojo, al estornino, al zorzal, al milano: así es el aprendizaje de la pequeña muerte. Que la grande...

:
de Heráclito queda «Heráclito» y el enjambre de teorías a su alrededor. De Heráclito no tenemos las palabras que acercan: casa, árbol, río, montaña, amigo; de Heráclito tenemos las palabras que alejan.

(...)

Son planos inclinados, las manos.


Rui Nunes

14.9.26

El ojo, Federico García Lorca




TIERRA

Andamos 
sobre un espejo
sin azogue,
sobre un cristal
sin nubes.
Si los lirios nacieran
al revés,
si todas las raíces
miraran las estrellas
y el muerto no cerrara
sus ojos,
seríamos como cisnes.


CAPRICHO

Detrás de cada espejo
hay una estrella muerta
y un arco iris niño
que duerme.

Detrás de cada espejo
hay una clama eterna
y un nido de silencios
que no han volado.

El espejo es la momia
del manantial, se cierra
como concha de luz
por la noche.

El espejo
es la madre-rocío
y el libro que diseca
los crepúsculos, el eco hecho carne.


AIRE

El aire
preñado de arcos iris,
rompe sus espejos
sobre la fronda.


PAISAJE

La tarde equivocada
se vistió de frío.

Detrás de los cristales
turbios, todos los niños,
ven convertirse en pájaros
un árbol amarillo.

La tarde está tendida
a lo largo del río.
Y un rubor de manzana
tiembla en los tejadillos.




El ocho, Federico García Lorca




LA AURORA


La aurora de Nueva York tiene

cuatro columnas de cieno

y un huracán de negras palomas

que chapotean las aguas podridas.

La aurora de Nueva York gime

por las inmensas escaleras

buscando entre las aristas

nardos de angustia dibujada.


La aurora llega y nadie la recibe en su boca

porque allí no hay mañana ni esperanza posible:

a veces las monedas en enjambres furiosos

taladran y devoran abandonados niños.

Los primeros que salen comprenden con sus huesos

que no habrá paraíso ni amores deshojados;

saben que van al cieno de números y leyes,

a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.

La luz es sepultada por cadenas y ruidos

en impúdico reto de ciencia sin raíces.

Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes

como recién salidas de un naufragio de sangre.



PEQUEÑO VALS VIENÉS


En Viena hay diez muchachas,

un hombro donde solloza la muerte

y un bosque de palomas disecadas.

Hay un fragmento de la mañana

en el museo de la escarcha.

Hay un salón con mil ventanas.


¡Ay, ay, ay, ay!

Toma este vals con la boca cerrada.


Este vals, este vals, este vals,

de sí, de muerte y de coñac

que moja su cola en el mar.


Te quiero, te quiero, te quiero,

con la butaca y el libro muerto,

por el melancólico pasillo,

en el oscuro desván del lirio,

en nuestra cama de la luna

y en la danza que sueña la tortuga.


¡Ay, ay, ay, ay!

Toma este vals de quebrada cintura.


En Viena hay cuatro espejos

donde juegan tu boca y los ecos.

Hay una muerte para piano

que pinta de azul a los muchachos.

Hay mendigos por los tejados.

Hay frescas guirnaldas de llanto.


Porque te quiero, te quiero, amor mío,

en el desván donde juegan los niños,

soñando viejas luces de Hungría

por los rumores de la tarde tibia,

viendo ovejas y lirios de nieve

por el silencio oscuro de tu frente.


¡Ay, ay, ay, ay!

Toma este vals del «Te quiero siempre».


En Viena bailaré contigo

con un disfraz que tenga

cabeza de río.

¡Mira qué orillas tengo de jacintos!

Dejaré mi boca entre tus piernas,

mi alma en fotografías y azucenas,

y en las ondas oscuras de tu andar

quiero, amor mío, amor mío, dejar,

violín y sepulcro, las cintas del vals.





Dibujo de Federico García Lorca




TIERRA Y LUNA

Me quedo con el transparente hombrecillo
que come los huevos de la golondrina.
Me quedo con el niño desnudo
que pisotean los borrachos de Brooklyn.
Con las criaturas mudas que pasan bajo los arcos.
Con el arroyo de venas ansioso de abrir sus manecitas.

Tierra tan sólo. Tierra.
Tierra para los manteles estremecidos,
para la pupila viciosa de nube,
para las heridas recientes y el húmedo pensamiento.
Tierra para todo lo que huye de la Tierra.

No es la ceniza en vilo de las cosas quemadas,
ni los muertos que mueven sus lenguas bajo los árboles.
Es la Tierra desnuda que bala por el cielo
y deja atrás los grupos ligeros de ballenas.

Es la tierra alegrísima, imperturbable nadadora,
la que yo encuentro en el niño y en las criaturas que pasan los arcos.
Viva tierra de mi pulso y del baile de los helechos
que deja a veces por el aire un duro perfil de Faraón.

Me quedo con la mujer fría
donde se queman los musgos inocentes.
Me quedo con los borrachos de Brooklyn
que pisan al niño desnudo.
Me quedo con los signos desgarrados
de la lenta comida de los osos.

Pero entonces bajó la luna despeñada por las escaleras
poniendo las ciudades de hule celeste y talco sensitivo,
llenando de pies de mármol la llanura sin recodos
y olvidando, bajo las sillas, diminutas carcajadas de algodón.

¡Oh Diana, Diana! Diana vacía.
Convexa resonancia donde la abeja se vuelve loca.
Mi amor es paso, tránsito, larga muerte gustada,
nunca la piel ilesa de tu desnudo huido.

Es Tierra ¡Dios mío! Tierra lo que vengo buscando.
Embozo de horizonte, latido y sepultura.
Es dolor que se acaba y amor que se consume.
Torre de sangre abierta con las manos quemadas.

Pero la luna subía y bajaba las escaleras,
repartiendo lentejas desangradas en los ojos,
dando escobazos de plata a los niños de los muelles
y borrando mi apariencia por el término del aire.




Nostalgia, Federico García Lorca




DEL SUEÑO AL AIRE LIBRE

Flor de jazmín y toro degollado.
Pavimento infinito. Mapa. Sala. Arpa. Alba.
La niña sueña un toro de jazmines
y el toro es un sangriento crepúsculo que brama.

Si el cielo fuera un niño pequeñito,
los jazmines tendrían mitad de noche oscura,
y el toro circo azul sin lidiadores,
y un corazón al pie de una columna.

Pero el cielo es un elefante,
el jazmín es un agua sin sangre,
y la niña es un ramo nocturno
por el inmenso pavimento oscuro.

Entre el jazmín y el toro
o garfios de marfil o gente dormida.
En el jazmín un elefante y nubes
y en el toro el esqueleto de la niña.


Federico García Lorca
Obra poética

12.9.26

George Lange: Portraits of Francesca Woodman, 1975–1978. Bernal Espacio Galería

09.09.2026 — 17.10.2026




Regressar a um livro, pela fissura de uma frase, de um erro, pela imperfeição de uma 

história. Recomeçar. A alegria de uma deriva


Regresar a un libro, por la fisura de una frase, de un error, por la imperfección de una

historia. Recomenzar. La alegría de una deriva.



Rui Nunes

Suíte e Fúria

21.8.26


 





que nunca por nunca estas linhas tivessem um ar acabado,

quisera apenas que uma urgência das coisas

as reclamasse, uma veemência,

uma potência das coisas,

e aí acabasse a sua breve música

mas já que a mim me devastava

que a ti te devastasse

leitor sempre inimigo

como o fogo cria assim a sua própria sombra


Herberto Helder

Letra Aberta



que nunca, nunca estas líneas tuvieran un aire acabado,
quisiera tan solo que una urgencia de las cosas
las reclamase, una vehemencia,
una potencia de las cosas,
y ahí acabara su breve música,
pero ya que a mí me devastaba,
que a ti te devastase,
lector siempre enemigo,
como el fuego crea así su propia sombra.


Herberto Helder

Letra abierta

20.8.26

Phyllida Barlow




PORT - ESP


O som da chuva no limoeiro era diferente do som da chuva na laranjeira. E o som da chuva na laranjeira era diferente do som da chuva na romãzeira. Os nomes surgiam quando a chuva começava e desapareciam quando a chuva acabava. Entre dois sons, em simultâneo, há qualquer coisa que se recusa, ou se esconde. Os destroços? Ainda hoje, quando chove, o velho passeia por entre as árvores para ver se consegue, para ouvir se consegue, para sentir na pele da cara se consegue. Que está aí a fazer? pergunta-lhe uma criança. Quem? Esqueci-me do teu nome. Um nome que se esqueceu é falta de um nome? Um nome é a falta de todos os nomes. Mas um nome que falta, o que é?

O corpo de um tumulto. Empurrado (atirado) de um lado para o outro. A aprendizagem do provisório. Do ruído incesante que o atravessa. Da perda. E nele todas as perdas são absolutas. A casa foi a primeira coisa que aprendeu a perder, reconstruindo-a, dia a dia, até nada sobrar, vigiado por um olhar sem retorno. Ele via até ao fim, ao fundo, que era continuar a ver, olhos esbugalhados, lábios entreabertos, húmidos de cuspo, o cabelo ralo. Ainda não sabia falar porque nenhuma palavra era dele. As mãos afastavam, as mãos não queriam, ao colo de quem a obstinada recusa, o medo de ver, que era afastar-se tudo cada vez mais. Foi a primeira aprendizagem: não haver medida: olha-se e é interminável.


Rui Nunes
Baixo Contínuo



El sonido de la lluvia en el limonero era diferente del sonido de la lluvia en el naranjo. Y el sonido de la lluvia en el naranjo era diferente del sonido de la lluvia en el granado. Los nombres surgían cuando la lluvia comenzaba y desaparecían cuando la lluvia terminaba. Entre dos sonidos, simultáneamente, hay algo que se niega, o se esconde. ¿Los restos? Todavía hoy, cuando llueve, el viejo pasea entre los árboles para ver si consigue, para oír si consigue, para sentir en la piel de la cara si consigue. ¿Qué está ahí haciendo? le pregunta una criatura. ¿Quién? He olvidado tu nombre. ¿Un nombre que se ha olvidado es falta de un nombre? Un nombre es la falta de todos los nombres. Pero un nombre que falta, ¿qué es?

El cuerpo de un tumulto. Empujado (arrojado) de un lado para otro. El aprendizaje de lo provisional. Del ruido incesante que lo atraviesa. De la pérdida. Y en él todas las pérdidas son absolutas. La casa fue la primera cosa que aprendió a perder, reconstruyéndola, día a día, hasta que nada quedara, vigilado por una mirada sin retorno. Veía hasta el final, hasta el fondo, que era seguir viendo, ojos desorbitados, labios entreabiertos, húmedos de saliva, el pelo ralo. Todavía no sabía hablar porque ninguna palabra era suya. Las manos apartaban, las manos no querían, en el regazo de quien la obstinada negativa, el miedo de ver, que era alejarse todo cada vez más. Fue el primer aprendizaje: no haber medida: se mira y es interminable.


Rui Nunes

Bajo continuo

10.8.26 Fotografía: César Barrio




PORT - ESP


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
                 à sua imagem. Este verão concentrado
                 em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
                 internos.

                 Vou morrer assim, arfando
                 entre o mar fotográfico
                 e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
                 o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
                 ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
                 ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
                 Cada noite é um abismo atómico.

                 E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
                 O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
                 contra a flecha. Deus ataca-me
                 na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
                 pelas mãos.


Herberto Helder
Ou o poema contínuo




Dejaré los jardines brillando con sus ojos 
detenidos: he de partir cuando las flores lleguen 
                 a su imagen. Este verano concentrado 
                 en cada espejo. El propio 
movimiento lo entenebrece. Arden los labios 
de los animales. Dejaré las constelaciones panorámicas de estos días 
                  internos. 

                  Voy a morir así, jadeando 
                  entre el mar fotográfico 
                  y cóncavo 
y las paredes con las perlas hundidas. Y la luna desencadena en las grutas 
                  la sangre que se agrava. 

Está lleno de candiles, el verano de donde se parte, 
                  ígneo en ese niño 
contemplado. Abandono estos jardines 
                  feroces, el genio 
que sopló en los estudios excavados. Es el dolor el que me lleva 
a los precipicios de agosto, la mansedumbre 
me trae a las ventanas. Son únicas las colinas de aire 
palpitando cerradas en el espejo. Es la estación de los planetas. 
                  Cada noche es un abismo atómico. 

                  Y la leche se vuelve tierna durante 
los eclipses. Golpean en mí los golpes del cantero 
que talla en el calcio la rosa congénita. 
La carne, la sofocan los astros profundos en los capullos. 
                  El verano es de azulejo. 
Es en nosotros donde se encorva el nervio del arco 
                  contra la flecha. Dios me ataca 
en la candidez. Queda, fría, 
esta red de jardines ante los incendios. Y un niño 
da la vuelta a la noche, completamente encendido 
                  por las manos.


Herberto Helder
O el poema continuo

2.8.26

Henri Michaux
 





(PORT - ESP)



O MAR


O que eu percebo, o que é meu, é o mar indefinido.

Aos vinte e um anos, evadi-me da vida das cidades, aventurei-me, foi marujo. A bordo havia muito que fazer. Fiquei espantado. Pensava que num navio a gente fitava o mar, que infindavelmente fitávamos o mar. 

Os barcos forma depois desaparelhados. Era o desemprego dos marítimos que assim começava.

Voltando as costas àquilo, fui-me embora, não disse nada, tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente em meu redor.

Mas qual mar? Foi isto justamente que eu depois me vi impedido de explicitar.



À ESPERA


Um ser doido,

um ser farol,

um ser mil vezes suprimido,

um ser exilado do fundo do horizonte,

um ser gritando do fundo do horizonte,

um ser magro,

um ser íntegro,

um ser altivo,

um ser que quereria ser,

um ser na batida de duas épocas que se entrechocan,

um ser nos gases venenosos das consciências que sucumben,

um ser como no primeiro dia,

um ser...



UM CERTO FENÓMENO CHAMADO MÚSICA


(...) 

Música, operação do devir, a mais sã operação humana. A música substitui os seres. a mãe, a mulher, a criança, os amigos, naquilo que têm de maravilhoso mas de que só quereríamos amiúde, sem dar por isso, através duma maravilhosa subtracção do que incomoda, guardar apenas isto que os exprime, para os tornar tão inofensivos como as ondas de delícias que dão náuseas. Música, eixo profundo, eixo arcaico que sustém os eixos múltiplos. Eixo, dir-se-ia, anterior à ambivalência.



LEITURA


Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único.

Muito diferente é o quadro: imediato, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias.

Nele não há um trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a LER.



OBSERVAÇÕES


Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo.

Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que tão extraordinário lhe parece no outro.

Pergunto-me que língua gostaria eu de ouvir no meu leito de morte, caso tenha uma cama e algum recolhimento. Mas nem pensar. Há-de-ser, aposto, mais uma hora de falhado.

Sincero? Eu escrevo para que aquilo que era verdade deixe de o ser. Prisão mostrada já não é prisão.

Conheço tão pouco o meu rosto que se me mostrassem um do mesmo género seria incapaz de ver a diferença (a não ser, talvez, desde que comecei a fazer estudos de rostos).

(...) As artes comprazem-se ainda muito nas suas servidões.



LINHAS

Sobre umas linhas traçadas sem objectivo no papel; 

sobre umas páginas de linhas.


Enobrecida por um traço de tinta, uma linha fina, uma linha onde já nada fede

Não para explicar, não para expor, não em terraços, não monumentalmente

Mas antes de maneira como pelo Mundo há anfractuosidades, sinuosidades, antes da maneira como há cães vadios

uma linha, uma linha, mias ou menos uma linha...

Em fragmentos, em primeiros germes, apanhada de súbito, uma linha, uma linha, uma linha... uma legião de linhas

Peixe miúdo da água nova de um sentimento que desponta, fala, se ri, se arrebata ou que às vezes se põe a apunhalar

Fugidas das prisões recebidas como herança, vindas não para definir, mas para indefinir, para passar o ancinho por cima, para voltar a escapar à escola, linhas, aqui e ali, linhas,

Que descem, ziguezagueiam, mergulham para sonhadoramente, para distraidamente, para multiplamente... em desejos que se espreguiçam, que libertam.



Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.

Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do principio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar a teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.



Eu o que vejo é sobretudo o movimento deles. Sou dos que gostam do movimento, do movimento que rompe a inércia, que enreda as linhas, desfaz os alinhamentos, me livra das construções. Do movimento como desobediência, como novo arranjo.

Uma vez mais posso ser espontâneo, totalmente, sem correcções, sem segunda versão, sem ter de voltar atrás, de fazer retoques. Logo à primeira.

O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Anos depois ainda e sempre essa aventura.



Por querer apanhar os insectos, apanhar tornara-se dominante, coisa em mim tão pouco natural (aquisição tardia), apanhar cujo oposto é "recolher-se", não se enriquecer com, manter-se reservado.


Por fim, APANHAR não era senão dinamismo, um apanhar abstracto, a isso se tendia.


Por falta do principal

apanhar desordenadamente, de modo exagerado,


Aturdir-me com isso


Fazer-me insecto para melhor apanhar

com patas de gancho para apanhar melhor

insecto, aracnídeo, miriápode, acarídeo

se preciso for, para apanhar melhor.


Voltar a encontrar a dança original dos seres para além da forma

e dé todo o tecido conjuntivo de que está atafulhada, para além

deste imóvel empacotamento que é a pele dos seres.


A linha não é um resumo de volume ou de superficie,

é um resumo de cem gestos e atitudes e impressões

e emoções.


Voltar a encontrar um todo em simultáneo.

Um resumo dinâmico feito de lanças, não de formas.



Por fim edificadas

por fim à imagem da nossa desmesurada medida

dominando vertiginosamente metrópoles e aldeias

unidos, nós e elas, apesar da sua massa e dureza

como irmãos gémeos colados pela boca

pela raiva, pelos rins, pelo ânus

pela abjecção comum impossível de esquecer

por tudo o que é falhado implacavelmente desde o princípio


pela desgraça de posição

por toda a velha cola reumatismal

pela nova instalação que fere mais

ainda mais deformadora

pela todavia inextinguível tendência para sublimar


catedrais

monstruosamente escoradas ao rosto do céu

nossas catedrais

quando vos veremos nós?



Henri Michaux

O retiro pelo risco. Antologia poética





EL MAR


Lo que percibo, lo que me pertenece, es el mar indefinido.

A los veintiún años huí de la vida de las ciudades, me lancé a la aventura, fui marinero. A bordo había muchísimo trabajo. Me quedé atónito. Yo pensaba que, en un barco, uno contemplaba el mar, que contemplábamos el mar interminablemente.

Los barcos fueron después desarmados. Así comenzaba el desempleo de los hombres del mar.

Di la espalda a todo aquello y me marché sin decir palabra; llevaba el mar dentro de mí, el mar eternamente a mi alrededor.

Pero ¿qué mar? Eso fue precisamente lo que después me vi incapaz de explicar.



A LA ESPERA


Un ser loco,

un ser faro,

un ser mil veces suprimido,

un ser desterrado del fondo del horizonte,

un ser que grita desde el fondo del horizonte,

un ser enjuto,

un ser íntegro,

un ser altivo,

un ser que querría llegar a ser,

un ser en el latido de dos épocas que chocan entre sí,

un ser entre los gases venenosos de las conciencias que sucumben,

un ser como en el primer día,

un ser...



UN CIERTO FENÓMENO LLAMADO MÚSICA


(...)

La música, operación del devenir, la más saludable de las operaciones humanas. La música sustituye a los seres: a la madre, a la mujer, al niño, a los amigos, en aquello que tienen de maravilloso, pero de quienes tan a menudo querríamos, sin siquiera advertirlo, mediante una maravillosa sustracción de todo cuanto incomoda, conservar únicamente aquello que los expresa, para volverlos tan inofensivos como las oleadas de deleite que llegan a provocar náusea. La música, eje profundo, eje arcaico que sostiene los ejes múltiples. Un eje, se diría, anterior a la ambivalencia.



LECTURA


Los libros son tediosos de leer. En ellos no existe la libre circulación. Se nos invita a seguir un camino. El recorrido está trazado, y es único.

Muy distinto es el cuadro: inmediato, total. A la izquierda, también a la derecha, en profundidad, sin trabas.

En él no hay un solo itinerario, sino mil; y las pausas no vienen señaladas. En cuanto uno lo desea, el cuadro entero reaparece, íntegro. En un instante está allí todo. Todo, pero aún nada es conocido. Es aquí donde debe comenzar la LECTURA.



OBSERVACIONES


Escribo para recorrerme. Pintar, componer, escribir: recorrerme. En eso reside la aventura de estar vivo.

¿Te gusta alguien, lo admiras? Procura, antes que nada, producir en ti aquello mismo que tan extraordinario te parece en el otro.

Me pregunto qué lengua me gustaría oír en mi lecho de muerte, suponiendo que tenga una cama y algún recogimiento. Pero ni pensarlo. Apuesto a que será una hora más de fracaso.

¿Sincero? Escribo para que aquello que era verdad deje de serlo. Una prisión mostrada ya no es una prisión.

Conozco tan poco mi rostro que, si me mostraran otro del mismo género, sería incapaz de advertir la diferencia (salvo, quizá, desde que empecé a hacer estudios de rostros).

(...) Las artes siguen complaciéndose demasiado en sus servidumbres.



LÍNEAS


Sobre unas líneas trazadas sin propósito sobre el papel;

sobre unas páginas rayadas.


Ennoblecida por un trazo de tinta,

una línea fina,

una línea donde ya nada hiede.


No para explicar,

no para exponer,

no en terrazas,

no monumentalmente.


Sino más bien del mismo modo que en el mundo hay anfractuosidades,

sinuosidades,

del mismo modo que hay perros vagabundos,

una línea,

una línea,

más o menos una línea...


En fragmentos,

en sus primeros gérmenes,

sorprendida de improviso,

una línea,

una línea,

una línea...

una legión de líneas.


Pececillo de las aguas nuevas de un sentimiento que despunta,

que habla,

que ríe,

que se arrebata

o que, a veces, se pone a apuñalar.


Escapadas de las prisiones recibidas en herencia;

venidas no para definir,

sino para indefinir,

para pasar el rastrillo por encima,

para volver a escapar de la escuela;

líneas,

aquí y allá,

líneas,


que descienden,

zigzaguean,

se sumergen,

soñadoramente,

distraídamente,

múltiplemente...

en deseos que se desperezan,

que liberan.



Conserva intacta tu debilidad. No procures adquirir fuerzas, sobre todo de esas que no son para ti, que no te están destinadas, de las que la naturaleza te preservaba, preparándote para otra cosa.

Llega hasta el final de tus errores, al menos de algunos de ellos, para observar muy bien de qué clase son. De lo contrario, si te detienes a mitad de camino, avanzarás siempre a ciegas, reincidiendo en la misma clase de errores desde el principio hasta el fin de tu vida, realizando aquello que algunos llamarán tu «destino». Obliga al enemigo, que es tu propia estructura, a descubrirse. Si no has podido torcer tu destino, no habrás sido más que un apartamento de alquiler.




Lo que yo veo es, sobre todo, su movimiento. Soy de quienes aman el movimiento; el movimiento que rompe la inercia, que enreda las líneas, deshace las alineaciones, me libra de las construcciones. El movimiento como desobediencia, como una nueva disposición.

Una vez más puedo ser espontáneo, enteramente espontáneo, sin correcciones, sin segunda versión, sin tener que volver atrás, sin hacer retoques. Desde el primer trazo.

El trazo como una bofetada que vuelve inútiles las explicaciones. Pintura para el azar, para que perdure la aventura de lo incierto, de lo inesperado. Años después, sigue siendo siempre esa aventura.




Por querer atrapar los insectos, atrapar se había convertido en lo dominante, en algo tan poco natural en mí (una adquisición tardía); atrapar, cuyo opuesto es «recogerse», no enriquecerse con nada, mantenerse reservado.

Al fin y al cabo, ATRAPAR no era sino dinamismo, un atrapar abstracto; hacia eso se tendía.

Por carecer de lo principal,

atrapar desordenadamente,

de manera exagerada,

aturdirme con ello,

hacerme insecto para atrapar mejor,

con patas de garfio para atrapar mejor,

insecto,

arácnido,

miriápodo,

ácaro,

si fuera preciso,

para atrapar mejor.


Volver a encontrar la danza original de los seres más allá de la forma

y de todo el tejido conjuntivo del que están atiborrados,

más allá

de este inmóvil embalaje que es la piel de los seres.


La línea no es un resumen del volumen ni de la superficie;

es un resumen de cien gestos,

de cien actitudes,

de cien impresiones

y emociones.


Volver a encontrar un todo simultáneo.

Un resumen dinámico hecho de lanzas,

no de formas.



CATEDRALES


Por fin edificadas,

por fin a imagen de nuestra desmesurada medida,

dominando vertiginosamente metrópolis y aldeas,

unidos, nosotros y ellas,

a pesar de su masa y de su dureza,

como hermanos gemelos pegados por la boca,

por la rabia,

por los riñones,

por el ano,

por la común abyección imposible de olvidar,

por todo cuanto ha fracasado implacablemente desde el principio,


por la desgracia de nuestra condición,

por toda la vieja cola reumática,

por la nueva implantación, que hiere más,

todavía más deformadora,

por la, sin embargo, inextinguible tendencia a sublimar,


catedrales,

monstruosamente apuntaladas contra el rostro del cielo,

nuestras catedrales,

¿cuándo os veremos?



Henri Michaux

El retiro por el riesgo. Antología poética