(PORT - ESP)
O MAR
O que eu percebo, o que é meu, é o mar indefinido.
Aos vinte e um anos, evadi-me da vida das cidades, aventurei-me, foi marujo. A bordo havia muito que fazer. Fiquei espantado. Pensava que num navio a gente fitava o mar, que infindavelmente fitávamos o mar.
Os barcos forma depois desaparelhados. Era o desemprego dos marítimos que assim começava.
Voltando as costas àquilo, fui-me embora, não disse nada, tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente em meu redor.
Mas qual mar? Foi isto justamente que eu depois me vi impedido de explicitar.
À ESPERA
Um ser doido,
um ser farol,
um ser mil vezes suprimido,
um ser exilado do fundo do horizonte,
um ser gritando do fundo do horizonte,
um ser magro,
um ser íntegro,
um ser altivo,
um ser que quereria ser,
um ser na batida de duas épocas que se entrechocan,
um ser nos gases venenosos das consciências que sucumben,
um ser como no primeiro dia,
um ser...
UM CERTO FENÓMENO CHAMADO MÚSICA
(...)
Música, operação do devir, a mais sã operação humana. A música substitui os seres. a mãe, a mulher, a criança, os amigos, naquilo que têm de maravilhoso mas de que só quereríamos amiúde, sem dar por isso, através duma maravilhosa subtracção do que incomoda, guardar apenas isto que os exprime, para os tornar tão inofensivos como as ondas de delícias que dão náuseas. Música, eixo profundo, eixo arcaico que sustém os eixos múltiplos. Eixo, dir-se-ia, anterior à ambivalência.
LEITURA
Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único.
Muito diferente é o quadro: imediato, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias.
Nele não há um trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a LER.
OBSERVAÇÕES
Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo.
Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que tão extraordinário lhe parece no outro.
Pergunto-me que língua gostaria eu de ouvir no meu leito de morte, caso tenha uma cama e algum recolhimento. Mas nem pensar. Há-de-ser, aposto, mais uma hora de falhado.
Sincero? Eu escrevo para que aquilo que era verdade deixe de o ser. Prisão mostrada já não é prisão.
Conheço tão pouco o meu rosto que se me mostrassem um do mesmo género seria incapaz de ver a diferença (a não ser, talvez, desde que comecei a fazer estudos de rostos).
(...) As artes comprazem-se ainda muito nas suas servidões.
LINHAS
Sobre umas linhas traçadas sem objectivo no papel;
sobre umas páginas de linhas.
Enobrecida por um traço de tinta, uma linha fina, uma linha onde já nada fede
Não para explicar, não para expor, não em terraços, não monumentalmente
Mas antes de maneira como pelo Mundo há anfractuosidades, sinuosidades, antes da maneira como há cães vadios
uma linha, uma linha, mias ou menos uma linha...
Em fragmentos, em primeiros germes, apanhada de súbito, uma linha, uma linha, uma linha... uma legião de linhas
Peixe miúdo da água nova de um sentimento que desponta, fala, se ri, se arrebata ou que às vezes se põe a apunhalar
Fugidas das prisões recebidas como herança, vindas não para definir, mas para indefinir, para passar o ancinho por cima, para voltar a escapar à escola, linhas, aqui e ali, linhas,
Que descem, ziguezagueiam, mergulham para sonhadoramente, para distraidamente, para multiplamente... em desejos que se espreguiçam, que libertam.
Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.
Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do principio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar a teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.
Eu o que vejo é sobretudo o movimento deles. Sou dos que gostam do movimento, do movimento que rompe a inércia, que enreda as linhas, desfaz os alinhamentos, me livra das construções. Do movimento como desobediência, como novo arranjo.
Uma vez mais posso ser espontâneo, totalmente, sem correcções, sem segunda versão, sem ter de voltar atrás, de fazer retoques. Logo à primeira.
O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Anos depois ainda e sempre essa aventura.
Por querer apanhar os insectos, apanhar tornara-se dominante, coisa em mim tão pouco natural (aquisição tardia), apanhar cujo oposto é "recolher-se", não se enriquecer com, manter-se reservado.
Por fim, APANHAR não era senão dinamismo, um apanhar abstracto, a isso se tendia.
Por falta do principal
apanhar desordenadamente, de modo exagerado,
Aturdir-me com isso
Fazer-me insecto para melhor apanhar
com patas de gancho para apanhar melhor
insecto, aracnídeo, miriápode, acarídeo
se preciso for, para apanhar melhor.
Voltar a encontrar a dança original dos seres para além da forma
e dé todo o tecido conjuntivo de que está atafulhada, para além
deste imóvel empacotamento que é a pele dos seres.
A linha não é um resumo de volume ou de superficie,
é um resumo de cem gestos e atitudes e impressões
e emoções.
Voltar a encontrar um todo em simultáneo.
Um resumo dinâmico feito de lanças, não de formas.
Por fim edificadas
por fim à imagem da nossa desmesurada medida
dominando vertiginosamente metrópoles e aldeias
unidos, nós e elas, apesar da sua massa e dureza
como irmãos gémeos colados pela boca
pela raiva, pelos rins, pelo ânus
pela abjecção comum impossível de esquecer
por tudo o que é falhado implacavelmente desde o princípio
pela desgraça de posição
por toda a velha cola reumatismal
pela nova instalação que fere mais
ainda mais deformadora
pela todavia inextinguível tendência para sublimar
catedrais
monstruosamente escoradas ao rosto do céu
nossas catedrais
quando vos veremos nós?
Henri Michaux
O retiro pelo risco. Antologia poética
EL MAR
Lo que percibo, lo que me pertenece, es el mar indefinido.
A los veintiún años huí de la vida de las ciudades, me lancé a la aventura, fui marinero. A bordo había muchísimo trabajo. Me quedé atónito. Yo pensaba que, en un barco, uno contemplaba el mar, que contemplábamos el mar interminablemente.
Los barcos fueron después desarmados. Así comenzaba el desempleo de los hombres del mar.
Di la espalda a todo aquello y me marché sin decir palabra; llevaba el mar dentro de mí, el mar eternamente a mi alrededor.
Pero ¿qué mar? Eso fue precisamente lo que después me vi incapaz de explicar.
A LA ESPERA
Un ser loco,
un ser faro,
un ser mil veces suprimido,
un ser desterrado del fondo del horizonte,
un ser que grita desde el fondo del horizonte,
un ser enjuto,
un ser íntegro,
un ser altivo,
un ser que querría llegar a ser,
un ser en el latido de dos épocas que chocan entre sí,
un ser entre los gases venenosos de las conciencias que sucumben,
un ser como en el primer día,
un ser...
UN CIERTO FENÓMENO LLAMADO MÚSICA
(...)
La música, operación del devenir, la más saludable de las operaciones humanas. La música sustituye a los seres: a la madre, a la mujer, al niño, a los amigos, en aquello que tienen de maravilloso, pero de quienes tan a menudo querríamos, sin siquiera advertirlo, mediante una maravillosa sustracción de todo cuanto incomoda, conservar únicamente aquello que los expresa, para volverlos tan inofensivos como las oleadas de deleite que llegan a provocar náusea. La música, eje profundo, eje arcaico que sostiene los ejes múltiples. Un eje, se diría, anterior a la ambivalencia.
LECTURA
Los libros son tediosos de leer. En ellos no existe la libre circulación. Se nos invita a seguir un camino. El recorrido está trazado, y es único.
Muy distinto es el cuadro: inmediato, total. A la izquierda, también a la derecha, en profundidad, sin trabas.
En él no hay un solo itinerario, sino mil; y las pausas no vienen señaladas. En cuanto uno lo desea, el cuadro entero reaparece, íntegro. En un instante está allí todo. Todo, pero aún nada es conocido. Es aquí donde debe comenzar la LECTURA.
OBSERVACIONES
Escribo para recorrerme. Pintar, componer, escribir: recorrerme. En eso reside la aventura de estar vivo.
¿Te gusta alguien, lo admiras? Procura, antes que nada, producir en ti aquello mismo que tan extraordinario te parece en el otro.
Me pregunto qué lengua me gustaría oír en mi lecho de muerte, suponiendo que tenga una cama y algún recogimiento. Pero ni pensarlo. Apuesto a que será una hora más de fracaso.
¿Sincero? Escribo para que aquello que era verdad deje de serlo. Una prisión mostrada ya no es una prisión.
Conozco tan poco mi rostro que, si me mostraran otro del mismo género, sería incapaz de advertir la diferencia (salvo, quizá, desde que empecé a hacer estudios de rostros).
(...) Las artes siguen complaciéndose demasiado en sus servidumbres.
LÍNEAS
Sobre unas líneas trazadas sin propósito sobre el papel;
sobre unas páginas rayadas.
Ennoblecida por un trazo de tinta,
una línea fina,
una línea donde ya nada hiede.
No para explicar,
no para exponer,
no en terrazas,
no monumentalmente.
Sino más bien del mismo modo que en el mundo hay anfractuosidades,
sinuosidades,
del mismo modo que hay perros vagabundos,
una línea,
una línea,
más o menos una línea...
En fragmentos,
en sus primeros gérmenes,
sorprendida de improviso,
una línea,
una línea,
una línea...
una legión de líneas.
Pececillo de las aguas nuevas de un sentimiento que despunta,
que habla,
que ríe,
que se arrebata
o que, a veces, se pone a apuñalar.
Escapadas de las prisiones recibidas en herencia;
venidas no para definir,
sino para indefinir,
para pasar el rastrillo por encima,
para volver a escapar de la escuela;
líneas,
aquí y allá,
líneas,
que descienden,
zigzaguean,
se sumergen,
soñadoramente,
distraídamente,
múltiplemente...
en deseos que se desperezan,
que liberan.
Conserva intacta tu debilidad. No procures adquirir fuerzas, sobre todo de esas que no son para ti, que no te están destinadas, de las que la naturaleza te preservaba, preparándote para otra cosa.
Llega hasta el final de tus errores, al menos de algunos de ellos, para observar muy bien de qué clase son. De lo contrario, si te detienes a mitad de camino, avanzarás siempre a ciegas, reincidiendo en la misma clase de errores desde el principio hasta el fin de tu vida, realizando aquello que algunos llamarán tu «destino». Obliga al enemigo, que es tu propia estructura, a descubrirse. Si no has podido torcer tu destino, no habrás sido más que un apartamento de alquiler.
Lo que yo veo es, sobre todo, su movimiento. Soy de quienes aman el movimiento; el movimiento que rompe la inercia, que enreda las líneas, deshace las alineaciones, me libra de las construcciones. El movimiento como desobediencia, como una nueva disposición.
Una vez más puedo ser espontáneo, enteramente espontáneo, sin correcciones, sin segunda versión, sin tener que volver atrás, sin hacer retoques. Desde el primer trazo.
El trazo como una bofetada que vuelve inútiles las explicaciones. Pintura para el azar, para que perdure la aventura de lo incierto, de lo inesperado. Años después, sigue siendo siempre esa aventura.
Por querer atrapar los insectos, atrapar se había convertido en lo dominante, en algo tan poco natural en mí (una adquisición tardía); atrapar, cuyo opuesto es «recogerse», no enriquecerse con nada, mantenerse reservado.
Al fin y al cabo, ATRAPAR no era sino dinamismo, un atrapar abstracto; hacia eso se tendía.
Por carecer de lo principal,
atrapar desordenadamente,
de manera exagerada,
aturdirme con ello,
hacerme insecto para atrapar mejor,
con patas de garfio para atrapar mejor,
insecto,
arácnido,
miriápodo,
ácaro,
si fuera preciso,
para atrapar mejor.
Volver a encontrar la danza original de los seres más allá de la forma
y de todo el tejido conjuntivo del que están atiborrados,
más allá
de este inmóvil embalaje que es la piel de los seres.
La línea no es un resumen del volumen ni de la superficie;
es un resumen de cien gestos,
de cien actitudes,
de cien impresiones
y emociones.
Volver a encontrar un todo simultáneo.
Un resumen dinámico hecho de lanzas,
no de formas.
CATEDRALES
Por fin edificadas,
por fin a imagen de nuestra desmesurada medida,
dominando vertiginosamente metrópolis y aldeas,
unidos, nosotros y ellas,
a pesar de su masa y de su dureza,
como hermanos gemelos pegados por la boca,
por la rabia,
por los riñones,
por el ano,
por la común abyección imposible de olvidar,
por todo cuanto ha fracasado implacablemente desde el principio,
por la desgracia de nuestra condición,
por toda la vieja cola reumática,
por la nueva implantación, que hiere más,
todavía más deformadora,
por la, sin embargo, inextinguible tendencia a sublimar,
catedrales,
monstruosamente apuntaladas contra el rostro del cielo,
nuestras catedrales,
¿cuándo os veremos?
Henri Michaux
El retiro por el riesgo. Antología poética
















