La flagelación de Cristo, 1470. Piero della Francesca
18.10.26
La flagelación de Cristo, 1470. Piero della Francesca
16.10.26
PORT | ESP
Suíte e Fuga
letra a letra, o som de uma arcaica máquina de morte. Som quase íntimo: constrói um involucro, o vazio que há nele. Não conseguiremos emendar a sua transparência. Respiramo-la:
:
e as palavras surgem,
peças minúsculas, umas ao lado das outras,
coesas até à imprecação.
:
Como escrevia Heraclito? onde? nas margens de que rio? nas praias de que mar? no alpendre de que casa? na sombra de que parreira? de que pinheiro? ou não escrevia? falava ao ouvido do adolescente sentado na caruma, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo e as formigas lhe subiam pelo branco da túnica?
Por momentos, Heraclito calava-se.
Hoje, perguntamo-nos o que é, o que era, esse silêncio.
E enchemo-lo de palavras.
O adolescente, porém, só ouvia o zumbido das vespas e o movimento da mão a afugentar uma mosca.
(O Ilissos, muito mais tarde. Um outro início?
Numa sala qualquer, num anfiteatro, as palavras, como as moscas, continuam a apoquentar os lábios)
(...)
Há um gesto escondido em algumas palavras, um massacre na estridência deum braço estendido: Heil, Heil, Heil: exasperação da parte mais brutal do corpo.
:
a sombra da mão deixou cair no sulco outra sombra.
Que germinou
2.
subo a escada, degrau a degrau, o meu corpo invade-me, é um desconhecido, ou torna-se. E tem a pobreza de um único nome: pulsação. No patamar, a criança ola-me. O corpo dela está cheio de nomes. É. Todos os nomes.
Anotaçoes
Quem é Heraclito? O que é Heraclito? Onde acaba a palavra de Heraclito e começa outra palavra que, não sendo já a de Heraclito, é o eco que ela deixou? E que relação há entre o eco e o som que o produz? O que há no eco, do som que o produz? Uma vibração?Um rumor? O silêncio específico de uma voz que se cala? Esse silêncio contaminado?
:
só a palavra inicial da Criação não tem um silêncio anterior.
:
Quantas vozes dissimularam/mostraram Heraclito? Abriram uma fresta pela qual se entrevê um fantasma? Ou toda a leitura, toda a interpretação, mais não é do que a criação de um fantasma? Esse texto puro, frente aos nossos olhos, tão puro que o lemos e relemos, sempre da mesma maneira, ouvindo sempre os mesmos sons, é o "inaccesível". Não conseguiremos percorrer todos os seus meandros, todas as vozes que nele se insinuaram, de um modo tão perverso que nem sequer ofuscam a sua leitura. E, no entanto...
:
O que é, quem é Heraclito? Ou: quem é Tolstoi? Proust? Kafka? Celan? Ou Sá de Miranda? Bernardim? Fernão Lopes? Que "rosa de ninguém" é cada texto? Um livro, um só livro, por vezes uma só palavra, irradiam e corroem todos os livros e todas as palavras. De quando em quando, descobrimos essa mancha, está ali, na página, obscurecendo-a, obscurecendo. De onde veio? De que terra incógnita?
Há textos que abrem para enormes vacilações. Disseminantes, inseminantes, rasgam um desvio em cada letra, em cada som, em cada olhar.
:
Há textos cujas palavras são a intimidade de um ser livre, textos que não conseguem acabar, porque, momento a momento, se dividem. Nos dividem
(...)
Qualquer escrita: metamorfoses de uma ruina.
(...)
Todas as palavras são um afastamento, não se sabe de quê, não se sabe de quem. Há uns que procuram responder. Mas chega-se sempre a um lugar desabitado, a uma boca fechada.
(...)
Descrever é petrificar.
Tudo o que julgávamos perceber, tudo o que julgávamos oculto, foram estações do nosso desespero. Queríamos encontrar um sentido, e por vezes encontrávamo-lo. Um deus infatigável corria à nossa frente, recomeçava a sua ausência.
Um dia, todas as palavras serão uma definição de teu silêncio.
(...)
Mudo, sentado numa pedra, no alto do monte, Heraclito vê o mar lá em baixo. O barco para Ítaca não voltará a passar. O vento enrola-lhe a túnica à magreza do corpo. Uma gaivota salta de pedra em pedra, escorrega nelas, num desequilíbrio, asas abertas, asas que tenteiam, que dão ao ar a sua inclinação. O alto do monte, ligeiramente abaulado, segue a curvatura do mar.
O que aprendeu este homem?
o relâmpago,
o desenho rapidíssimo da eternidade:
tempo de uma sufocação.
(...)
Regressar a um livro, pela fissura de uma frase, de um erro, pela imperfeição de uma história. Recomeçar. A alegria de uma deriva
:
Sobrevivemos assim, quando nos tornamos personagens de todos os livros que lemos, quando entramos no palácio da duquesa de Guermantes, quando olhamos o nosso corpo transformado numa espécie monstruosa de barata, quando atravessamos, ao lado de Raskolnikov, uma ponte de São Petersburgo, quando nos aproximamos da morte com o terror de Ivan Illich, quando percebemos a linha subtil que separa aquilo que podemos daquilo que não podemos conhecer, quando pressentimos que a dor é intransponível, identifica-nos como uma impressão digital. E nunca poderá ser partilhada. Únicos e absolutamente outros. A dor física, brutal, de um órgão que adoece, que apodrece, a dor não tem partilha nem descrição, é uma sílaba. Uma ilha.
(...)
E Heraclito?
A denúncia de uma ausência.
Todos os dias o texto recomeça:
o início é insaciável,
(...)
A intimidade de um vazio feito de pequenas manchas, de dedadas, de grãos de pó, de pingos de água secos, tudo o que resta do quotidiano de uma vida qualquer, de um espelho, de quem se viu nele?, sinais reflexos de sinais?
Uma história? Todas as histórias? O que sobra dos heróis que não conhecemos? Um vestigio de qué? De quem? A retórica de uma chama?
(...)
Com o tempo, muitas coisas deixaram de ter nome. São as inomináveis. Movem-se livres num esquecimento.
Estar próximo é a grande experiência. Quase. Não é uma antecipação, nada tem que ver com isso. Há o tempo do primeiro relâmpago, da primeira contaminação. O fim antecipa-se, um sinal, a que sicede outro, tão outro, que não se consegue estabelecer uma ligação entre ambos. Tornam-se cada vez mais frequentes, estes sinais. Por fim, não há um único instante em que não surja um. A vida é a vivência dessa proximidade. Apercebemo-nos de que tudo vai resistir: a casa onde nascemos, o quadro que comprámos, a música que ouvimos, o copo por onde bebemos água: imensos lábios estão perdidos nessa transparência, imensos olhos no quadro, imensos mortos na casa. O fim é uma inauguração. De qualquer passado.
[a fluidez do desmantelamento.
[E Heraclito?
Esmiuçado até ao desacordo, absolutamente esquecido, à beira de que praia? no alto de que montanha? nas ruas de que cidade? É o habitante de um mapa. De um ponto no mapa. Éfeso? Uma cara inventada. Não um rosto. Inventada como uma criança desenha um pássaro. Que são todos os pássaros. O pássaro qualquer. Ainda não aprendeu a descer do mundo das ideias. Pouco a pouco, chegará ao pardal, ao pisco, ao estorninho, ao tordo, ao milhafre: é assim a aprendizagem da pequena morte. Que a grande...
:
de Heraclito resta "Heraclito" e o enxame de teorias à volta dele. De Heraclito não temos as palavras que aproximam: casa, árvore, rio, montanha, amigo, de Heraclito temos as palavras que afastam.
(...)
São planos inclinados, as mãos
Rui Nunes
Suite y furia
letra por letra, el sonido de una arcaica máquina de muerte. Sonido casi íntimo: construye una envoltura, el vacío que hay en ella. No conseguiremos remendar su transparencia. La respiramos:
:
y las palabras surgen,
piezas minúsculas, unas al lado de las otras,
cohesionadas hasta la imprecación.
:
¿Cómo escribía Heráclito? ¿dónde? ¿en las orillas de qué río? ¿en las playas de qué mar? ¿en el porche de qué casa? ¿a la sombra de qué parra? ¿de qué pino? ¿o no escribía? ¿hablaba al oído del adolescente sentado sobre la pinocha, mientras le pasaba la mano por el cabello y las hormigas le subían por la blancura de la túnica?
Por momentos, Heráclito callaba.
Hoy nos preguntamos qué es, qué era, ese silencio.
Y lo llenamos de palabras.
El adolescente, sin embargo, solo oía el zumbido de las avispas y el movimiento de la mano que ahuyentaba una mosca.
(El Iliso, mucho más tarde. ¿Otro comienzo?
En cualquier sala, en un anfiteatro, las palabras, como las moscas, siguen importunando los labios)
(...)
Hay un gesto escondido en algunas palabras, una masacre en la estridencia de un brazo extendido: Heil, Heil, Heil: exasperación de la parte más brutal del cuerpo.
:
la sombra de la mano dejó caer en el surco otra sombra.
Que germinó
2.
subo la escalera, peldaño a peldaño, mi cuerpo me invade, es un desconocido, o se convierte en uno. Y tiene la pobreza de un único nombre: pulsación. En el rellano, la niña me mira. Su cuerpo está lleno de nombres. Es. Todos los nombres.
Anotaciones
¿Quién es Heráclito? ¿Qué es Heráclito? ¿Dónde acaba la palabra de Heráclito y comienza otra palabra que, sin ser ya la de Heráclito, es el eco que dejó? ¿Y qué relación hay entre el eco y el sonido que lo produce? ¿Qué hay en el eco del sonido que lo produce? ¿Una vibración? ¿Un rumor? ¿El silencio específico de una voz que calla? ¿Ese silencio contaminado?
:
solo la palabra inicial de la Creación carece de un silencio anterior.
:
¿Cuántas voces han disimulado/mostrado a Heráclito? ¿Han abierto una rendija por la que se entrevé un fantasma? ¿O toda lectura, toda interpretación, no es más que la creación de un fantasma? Ese texto puro, ante nuestros ojos, tan puro que lo leemos y releemos, siempre de la misma manera, oyendo siempre los mismos sonidos, es lo «inaccesible». No conseguiremos recorrer todos sus meandros, todas las voces que en él se insinuaron, de un modo tan perverso que ni siquiera empañan su lectura. Y, sin embargo...
:
¿Qué es, quién es Heráclito? O: ¿quién es Tolstói? ¿Proust? ¿Kafka? ¿Celan? ¿O Sá de Miranda? ¿Bernardim? ¿Fernão Lopes? ¿Qué «rosa de nadie» es cada texto? Un libro, un solo libro, a veces una sola palabra, irradian y corroen todos los libros y todas las palabras. De vez en cuando, descubrimos esa mancha, está ahí, en la página, oscureciéndola, oscureciendo. ¿De dónde vino? ¿De qué tierra incógnita?
Hay textos que se abren a enormes vacilaciones. Diseminadores, inseminadores, abren una desviación en cada letra, en cada sonido, en cada mirada.
:
Hay textos cuyas palabras son la intimidad de un ser libre, textos que no consiguen terminar, porque, momento a momento, se dividen. Nos dividen.
(...)
Cualquier escritura: metamorfosis de una ruina.
(...)
Todas las palabras son un alejamiento, no se sabe de qué, no se sabe de quién. Hay quienes intentan responder. Pero siempre se llega a un lugar deshabitado, a una boca cerrada.
(...)
Describir es petrificar.
Todo lo que creíamos percibir, todo lo que creíamos oculto, fueron estaciones de nuestra desesperación. Queríamos encontrar un sentido, y a veces lo encontrábamos. Un dios infatigable corría delante de nosotros, recomenzaba su ausencia.
Un día, todas las palabras serán una definición de tu silencio.
(...)
Mudo, sentado en una piedra, en lo alto del monte, Heráclito ve el mar allá abajo. El barco hacia Ítaca no volverá a pasar. El viento le enrolla la túnica alrededor de la delgadez del cuerpo. Una gaviota salta de piedra en piedra, resbala sobre ellas, en un desequilibrio, alas abiertas, alas que tantean, que dan al aire su inclinación. La cima del monte, ligeramente abombada, sigue la curvatura del mar.
¿Qué aprendió este hombre?
el relámpago,
el rapidísimo dibujo de la eternidad:
tiempo de una sofocación.
(...)
Regresar a un libro, por la fisura de una frase, de un error, por la imperfección de una historia. Recomenzar. La alegría de una deriva.
:
Sobrevivimos así, cuando nos convertimos en personajes de todos los libros que leemos, cuando entramos en el palacio de la duquesa de Guermantes, cuando contemplamos nuestro cuerpo transformado en una especie monstruosa de cucaracha, cuando atravesamos, junto a Raskólnikov, un puente de San Petersburgo, cuando nos acercamos a la muerte con el terror de Iván Ilich, cuando percibimos la línea sutil que separa aquello que podemos conocer de aquello que no podemos conocer, cuando presentimos que el dolor es infranqueable, nos identifica como una huella dactilar. Y nunca podrá compartirse. Únicos y absolutamente otros. El dolor físico, brutal, de un órgano que enferma, que se pudre; el dolor no admite compartirlo ni describirlo, es una sílaba. Una isla.
(...)
¿Y Heráclito?
La denuncia de una ausencia.
Todos los días el texto recomienza:
el comienzo es insaciable,
(...)
La intimidad de un vacío hecho de pequeñas manchas, de huellas dactilares, de granos de polvo, de gotas de agua secas, todo lo que queda de la cotidianidad de una vida cualquiera, de un espejo, ¿de quien se vio en él?, ¿señales reflejas de señales?
¿Una historia? ¿Todas las historias? ¿Qué queda de los héroes que no conocemos? ¿Un vestigio de qué? ¿De quién? ¿La retórica de una llama?
(...)
Con el tiempo, muchas cosas dejaron de tener nombre. Son las innombrables. Se mueven libres en un olvido.
Estar cerca es la gran experiencia. Casi. No es una anticipación, nada tiene que ver con eso. Está el tiempo del primer relámpago, de la primera contaminación. El final se anticipa, una señal, a la que sucede otra, tan otra, que no se consigue establecer una conexión entre ambas. Estas señales se vuelven cada vez más frecuentes. Por fin, no hay un solo instante en que no aparezca una. La vida es la vivencia de esa proximidad. Nos damos cuenta de que todo va a resistir: la casa donde nacimos, el cuadro que compramos, la música que escuchamos, el vaso del que bebemos agua: innumerables labios se han perdido en esa transparencia, innumerables ojos en el cuadro, innumerables muertos en la casa. El final es una inauguración. De cualquier pasado.
[la fluidez del desmantelamiento.
[¿Y Heráclito?
Desmenuzado hasta el desacuerdo, absolutamente olvidado, ¿a orillas de qué playa? ¿en lo alto de qué montaña? ¿por las calles de qué ciudad? Es el habitante de un mapa. De un punto en el mapa. ¿Éfeso? Una cara inventada. No un rostro. Inventada como un niño dibuja un pájaro. Que son todos los pájaros. El pájaro cualquiera. Todavía no ha aprendido a descender del mundo de las ideas. Poco a poco, llegará al gorrión, al petirrojo, al estornino, al zorzal, al milano: así es el aprendizaje de la pequeña muerte. Que la grande...
:
de Heráclito queda «Heráclito» y el enjambre de teorías a su alrededor. De Heráclito no tenemos las palabras que acercan: casa, árbol, río, montaña, amigo; de Heráclito tenemos las palabras que alejan.
(...)
Son planos inclinados, las manos.
Rui Nunes
14.9.26
LA AURORA
La aurora de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean las aguas podridas.
La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.
La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible:
a veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.
Los primeros que salen comprenden con sus huesos
que no habrá paraíso ni amores deshojados;
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.
La luz es sepultada por cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
como recién salidas de un naufragio de sangre.
PEQUEÑO VALS VIENÉS
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.
En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas guirnaldas de llanto.
Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals del «Te quiero siempre».
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.
12.9.26
George Lange: Portraits of Francesca Woodman, 1975–1978. Bernal Espacio Galería
09.09.2026 — 17.10.2026
Regressar a um livro, pela fissura de uma frase, de um erro, pela imperfeição de uma
história. Recomeçar. A alegria de uma deriva
Regresar a un libro, por la fisura de una frase, de un error, por la imperfección de una
historia. Recomenzar. La alegría de una deriva.
Rui Nunes
Suíte e Fúria
21.8.26
que nunca por nunca estas linhas tivessem um ar acabado,
quisera apenas que uma urgência das coisas
as reclamasse, uma veemência,
uma potência das coisas,
e aí acabasse a sua breve música
mas já que a mim me devastava
que a ti te devastasse
leitor sempre inimigo
como o fogo cria assim a sua própria sombra
Herberto Helder
Letra Aberta
que nunca, nunca estas líneas tuvieran un aire acabado,
quisiera tan solo que una urgencia de las cosas
las reclamase, una vehemencia,
una potencia de las cosas,
y ahí acabara su breve música,
pero ya que a mí me devastaba,
que a ti te devastase,
lector siempre enemigo,
como el fuego crea así su propia sombra.
Herberto Helder
Letra abierta
20.8.26
El sonido de la lluvia en el limonero era diferente del sonido de la lluvia en el naranjo. Y el sonido de la lluvia en el naranjo era diferente del sonido de la lluvia en el granado. Los nombres surgían cuando la lluvia comenzaba y desaparecían cuando la lluvia terminaba. Entre dos sonidos, simultáneamente, hay algo que se niega, o se esconde. ¿Los restos? Todavía hoy, cuando llueve, el viejo pasea entre los árboles para ver si consigue, para oír si consigue, para sentir en la piel de la cara si consigue. ¿Qué está ahí haciendo? le pregunta una criatura. ¿Quién? He olvidado tu nombre. ¿Un nombre que se ha olvidado es falta de un nombre? Un nombre es la falta de todos los nombres. Pero un nombre que falta, ¿qué es?
El cuerpo de un tumulto. Empujado (arrojado) de un lado para otro. El aprendizaje de lo provisional. Del ruido incesante que lo atraviesa. De la pérdida. Y en él todas las pérdidas son absolutas. La casa fue la primera cosa que aprendió a perder, reconstruyéndola, día a día, hasta que nada quedara, vigilado por una mirada sin retorno. Veía hasta el final, hasta el fondo, que era seguir viendo, ojos desorbitados, labios entreabiertos, húmedos de saliva, el pelo ralo. Todavía no sabía hablar porque ninguna palabra era suya. Las manos apartaban, las manos no querían, en el regazo de quien la obstinada negativa, el miedo de ver, que era alejarse todo cada vez más. Fue el primer aprendizaje: no haber medida: se mira y es interminable.
Rui Nunes
Bajo continuo
2.8.26
(PORT - ESP)
O MAR
O que eu percebo, o que é meu, é o mar indefinido.
Aos vinte e um anos, evadi-me da vida das cidades, aventurei-me, foi marujo. A bordo havia muito que fazer. Fiquei espantado. Pensava que num navio a gente fitava o mar, que infindavelmente fitávamos o mar.
Os barcos forma depois desaparelhados. Era o desemprego dos marítimos que assim começava.
Voltando as costas àquilo, fui-me embora, não disse nada, tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente em meu redor.
Mas qual mar? Foi isto justamente que eu depois me vi impedido de explicitar.
À ESPERA
Um ser doido,
um ser farol,
um ser mil vezes suprimido,
um ser exilado do fundo do horizonte,
um ser gritando do fundo do horizonte,
um ser magro,
um ser íntegro,
um ser altivo,
um ser que quereria ser,
um ser na batida de duas épocas que se entrechocan,
um ser nos gases venenosos das consciências que sucumben,
um ser como no primeiro dia,
um ser...
UM CERTO FENÓMENO CHAMADO MÚSICA
(...)
Música, operação do devir, a mais sã operação humana. A música substitui os seres. a mãe, a mulher, a criança, os amigos, naquilo que têm de maravilhoso mas de que só quereríamos amiúde, sem dar por isso, através duma maravilhosa subtracção do que incomoda, guardar apenas isto que os exprime, para os tornar tão inofensivos como as ondas de delícias que dão náuseas. Música, eixo profundo, eixo arcaico que sustém os eixos múltiplos. Eixo, dir-se-ia, anterior à ambivalência.
LEITURA
Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único.
Muito diferente é o quadro: imediato, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias.
Nele não há um trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a LER.
OBSERVAÇÕES
Escrevo para me percorrer. Pintar, compor, escrever: percorrer-me. Reside nisto a aventura de estar vivo.
Gosta de alguém, admira-o? Tente de preferência produzir em si aquilo que tão extraordinário lhe parece no outro.
Pergunto-me que língua gostaria eu de ouvir no meu leito de morte, caso tenha uma cama e algum recolhimento. Mas nem pensar. Há-de-ser, aposto, mais uma hora de falhado.
Sincero? Eu escrevo para que aquilo que era verdade deixe de o ser. Prisão mostrada já não é prisão.
Conheço tão pouco o meu rosto que se me mostrassem um do mesmo género seria incapaz de ver a diferença (a não ser, talvez, desde que comecei a fazer estudos de rostos).
(...) As artes comprazem-se ainda muito nas suas servidões.
LINHAS
Sobre umas linhas traçadas sem objectivo no papel;
sobre umas páginas de linhas.
Enobrecida por um traço de tinta, uma linha fina, uma linha onde já nada fede
Não para explicar, não para expor, não em terraços, não monumentalmente
Mas antes de maneira como pelo Mundo há anfractuosidades, sinuosidades, antes da maneira como há cães vadios
uma linha, uma linha, mias ou menos uma linha...
Em fragmentos, em primeiros germes, apanhada de súbito, uma linha, uma linha, uma linha... uma legião de linhas
Peixe miúdo da água nova de um sentimento que desponta, fala, se ri, se arrebata ou que às vezes se põe a apunhalar
Fugidas das prisões recebidas como herança, vindas não para definir, mas para indefinir, para passar o ancinho por cima, para voltar a escapar à escola, linhas, aqui e ali, linhas,
Que descem, ziguezagueiam, mergulham para sonhadoramente, para distraidamente, para multiplamente... em desejos que se espreguiçam, que libertam.
Guarda a tua fraqueza intacta. Não procures ganhar forças, sobretudo dessas que não são para ti, que te não estão destinadas, de que a natureza te preservava, preparando-te para outra coisa.
Vai até ao fim dos teus erros, pelo menos de alguns, de modo a observares muito bem o género deles. De contrário, parando tu a meio caminho, avançarás sempre cegamente, voltando a cometer o mesmo género de erros, do principio ao fim da tua vida, realizando aquilo a que alguns hão-de chamar a teu "destino". Força o inimigo, que é a tua estrutura, a descobrir-se. Se não pudeste entortar o teu destino, terás sido apenas um apartamento alugado.
Eu o que vejo é sobretudo o movimento deles. Sou dos que gostam do movimento, do movimento que rompe a inércia, que enreda as linhas, desfaz os alinhamentos, me livra das construções. Do movimento como desobediência, como novo arranjo.
Uma vez mais posso ser espontâneo, totalmente, sem correcções, sem segunda versão, sem ter de voltar atrás, de fazer retoques. Logo à primeira.
O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Anos depois ainda e sempre essa aventura.
Por querer apanhar os insectos, apanhar tornara-se dominante, coisa em mim tão pouco natural (aquisição tardia), apanhar cujo oposto é "recolher-se", não se enriquecer com, manter-se reservado.
Por fim, APANHAR não era senão dinamismo, um apanhar abstracto, a isso se tendia.
Por falta do principal
apanhar desordenadamente, de modo exagerado,
Aturdir-me com isso
Fazer-me insecto para melhor apanhar
com patas de gancho para apanhar melhor
insecto, aracnídeo, miriápode, acarídeo
se preciso for, para apanhar melhor.
Voltar a encontrar a dança original dos seres para além da forma
e dé todo o tecido conjuntivo de que está atafulhada, para além
deste imóvel empacotamento que é a pele dos seres.
A linha não é um resumo de volume ou de superficie,
é um resumo de cem gestos e atitudes e impressões
e emoções.
Voltar a encontrar um todo em simultáneo.
Um resumo dinâmico feito de lanças, não de formas.
Por fim edificadas
por fim à imagem da nossa desmesurada medida
dominando vertiginosamente metrópoles e aldeias
unidos, nós e elas, apesar da sua massa e dureza
como irmãos gémeos colados pela boca
pela raiva, pelos rins, pelo ânus
pela abjecção comum impossível de esquecer
por tudo o que é falhado implacavelmente desde o princípio
pela desgraça de posição
por toda a velha cola reumatismal
pela nova instalação que fere mais
ainda mais deformadora
pela todavia inextinguível tendência para sublimar
catedrais
monstruosamente escoradas ao rosto do céu
nossas catedrais
quando vos veremos nós?
Henri Michaux
O retiro pelo risco. Antologia poética
EL MAR
Lo que percibo, lo que me pertenece, es el mar indefinido.
A los veintiún años huí de la vida de las ciudades, me lancé a la aventura, fui marinero. A bordo había muchísimo trabajo. Me quedé atónito. Yo pensaba que, en un barco, uno contemplaba el mar, que contemplábamos el mar interminablemente.
Los barcos fueron después desarmados. Así comenzaba el desempleo de los hombres del mar.
Di la espalda a todo aquello y me marché sin decir palabra; llevaba el mar dentro de mí, el mar eternamente a mi alrededor.
Pero ¿qué mar? Eso fue precisamente lo que después me vi incapaz de explicar.
A LA ESPERA
Un ser loco,
un ser faro,
un ser mil veces suprimido,
un ser desterrado del fondo del horizonte,
un ser que grita desde el fondo del horizonte,
un ser enjuto,
un ser íntegro,
un ser altivo,
un ser que querría llegar a ser,
un ser en el latido de dos épocas que chocan entre sí,
un ser entre los gases venenosos de las conciencias que sucumben,
un ser como en el primer día,
un ser...
UN CIERTO FENÓMENO LLAMADO MÚSICA
(...)
La música, operación del devenir, la más saludable de las operaciones humanas. La música sustituye a los seres: a la madre, a la mujer, al niño, a los amigos, en aquello que tienen de maravilloso, pero de quienes tan a menudo querríamos, sin siquiera advertirlo, mediante una maravillosa sustracción de todo cuanto incomoda, conservar únicamente aquello que los expresa, para volverlos tan inofensivos como las oleadas de deleite que llegan a provocar náusea. La música, eje profundo, eje arcaico que sostiene los ejes múltiples. Un eje, se diría, anterior a la ambivalencia.
LECTURA
Los libros son tediosos de leer. En ellos no existe la libre circulación. Se nos invita a seguir un camino. El recorrido está trazado, y es único.
Muy distinto es el cuadro: inmediato, total. A la izquierda, también a la derecha, en profundidad, sin trabas.
En él no hay un solo itinerario, sino mil; y las pausas no vienen señaladas. En cuanto uno lo desea, el cuadro entero reaparece, íntegro. En un instante está allí todo. Todo, pero aún nada es conocido. Es aquí donde debe comenzar la LECTURA.
OBSERVACIONES
Escribo para recorrerme. Pintar, componer, escribir: recorrerme. En eso reside la aventura de estar vivo.
¿Te gusta alguien, lo admiras? Procura, antes que nada, producir en ti aquello mismo que tan extraordinario te parece en el otro.
Me pregunto qué lengua me gustaría oír en mi lecho de muerte, suponiendo que tenga una cama y algún recogimiento. Pero ni pensarlo. Apuesto a que será una hora más de fracaso.
¿Sincero? Escribo para que aquello que era verdad deje de serlo. Una prisión mostrada ya no es una prisión.
Conozco tan poco mi rostro que, si me mostraran otro del mismo género, sería incapaz de advertir la diferencia (salvo, quizá, desde que empecé a hacer estudios de rostros).
(...) Las artes siguen complaciéndose demasiado en sus servidumbres.
LÍNEAS
Sobre unas líneas trazadas sin propósito sobre el papel;
sobre unas páginas rayadas.
Ennoblecida por un trazo de tinta,
una línea fina,
una línea donde ya nada hiede.
No para explicar,
no para exponer,
no en terrazas,
no monumentalmente.
Sino más bien del mismo modo que en el mundo hay anfractuosidades,
sinuosidades,
del mismo modo que hay perros vagabundos,
una línea,
una línea,
más o menos una línea...
En fragmentos,
en sus primeros gérmenes,
sorprendida de improviso,
una línea,
una línea,
una línea...
una legión de líneas.
Pececillo de las aguas nuevas de un sentimiento que despunta,
que habla,
que ríe,
que se arrebata
o que, a veces, se pone a apuñalar.
Escapadas de las prisiones recibidas en herencia;
venidas no para definir,
sino para indefinir,
para pasar el rastrillo por encima,
para volver a escapar de la escuela;
líneas,
aquí y allá,
líneas,
que descienden,
zigzaguean,
se sumergen,
soñadoramente,
distraídamente,
múltiplemente...
en deseos que se desperezan,
que liberan.
Conserva intacta tu debilidad. No procures adquirir fuerzas, sobre todo de esas que no son para ti, que no te están destinadas, de las que la naturaleza te preservaba, preparándote para otra cosa.
Llega hasta el final de tus errores, al menos de algunos de ellos, para observar muy bien de qué clase son. De lo contrario, si te detienes a mitad de camino, avanzarás siempre a ciegas, reincidiendo en la misma clase de errores desde el principio hasta el fin de tu vida, realizando aquello que algunos llamarán tu «destino». Obliga al enemigo, que es tu propia estructura, a descubrirse. Si no has podido torcer tu destino, no habrás sido más que un apartamento de alquiler.
Lo que yo veo es, sobre todo, su movimiento. Soy de quienes aman el movimiento; el movimiento que rompe la inercia, que enreda las líneas, deshace las alineaciones, me libra de las construcciones. El movimiento como desobediencia, como una nueva disposición.
Una vez más puedo ser espontáneo, enteramente espontáneo, sin correcciones, sin segunda versión, sin tener que volver atrás, sin hacer retoques. Desde el primer trazo.
El trazo como una bofetada que vuelve inútiles las explicaciones. Pintura para el azar, para que perdure la aventura de lo incierto, de lo inesperado. Años después, sigue siendo siempre esa aventura.
Por querer atrapar los insectos, atrapar se había convertido en lo dominante, en algo tan poco natural en mí (una adquisición tardía); atrapar, cuyo opuesto es «recogerse», no enriquecerse con nada, mantenerse reservado.
Al fin y al cabo, ATRAPAR no era sino dinamismo, un atrapar abstracto; hacia eso se tendía.
Por carecer de lo principal,
atrapar desordenadamente,
de manera exagerada,
aturdirme con ello,
hacerme insecto para atrapar mejor,
con patas de garfio para atrapar mejor,
insecto,
arácnido,
miriápodo,
ácaro,
si fuera preciso,
para atrapar mejor.
Volver a encontrar la danza original de los seres más allá de la forma
y de todo el tejido conjuntivo del que están atiborrados,
más allá
de este inmóvil embalaje que es la piel de los seres.
La línea no es un resumen del volumen ni de la superficie;
es un resumen de cien gestos,
de cien actitudes,
de cien impresiones
y emociones.
Volver a encontrar un todo simultáneo.
Un resumen dinámico hecho de lanzas,
no de formas.
CATEDRALES
Por fin edificadas,
por fin a imagen de nuestra desmesurada medida,
dominando vertiginosamente metrópolis y aldeas,
unidos, nosotros y ellas,
a pesar de su masa y de su dureza,
como hermanos gemelos pegados por la boca,
por la rabia,
por los riñones,
por el ano,
por la común abyección imposible de olvidar,
por todo cuanto ha fracasado implacablemente desde el principio,
por la desgracia de nuestra condición,
por toda la vieja cola reumática,
por la nueva implantación, que hiere más,
todavía más deformadora,
por la, sin embargo, inextinguible tendencia a sublimar,
catedrales,
monstruosamente apuntaladas contra el rostro del cielo,
nuestras catedrales,
¿cuándo os veremos?
Henri Michaux
El retiro por el riesgo. Antología poética

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